Arquivo | Maio, 2014

09 NOTAS DA TSF / RÁDIO PÚBLICA NO ANTES DE ABRIL: Para um Museu Nacional de Comunicações

17 Maio

16″Em verdade, em verdade vos digo: o servo não está acima do seu senhor e o mensageiro não é maior que aquele que o enviou. 17Se sabeis isto, e o puserdes em prática, sereis felizes” (Jo 13, 16-17) (sublinhado nosso).

 

As experiências radioelétricas já vinham dos finais do regime monárquico; conhecidos que eram os trabalhos do almirante Gago Goutinho (1) precedidos e continuados por outras figuras da TSF –  Telegrafia e Telefonia Sem Fios (2).

Quanto à radiodifusão (programas públicos de fonia, via rádio, para auditório aberto) é assinado em 1930 o decreto que cria a Direcção dos Serviços Radioeléctricos dos CTT (3). 

Em 1932 o Ministro das Obras Públicas e Comunicações, eng.º Duarte Pacheco aprova experiências rádioelétricas. Em Barcarena, mais concretamente no Alto do Paimão, concelho de Oeiras são instalados os primeiros estúdios e o emissor público. Contudo esta primeira estação estatal, cedo começa a ser desdobrada e deslocada para outros locais. Com efeito, em 1934 vários serviços de Barcarena são transferidos para a Rua do Quelhas – Lisboa, tendo nesta localidade feito uma longa história, até finais do século XX, se considerarmos a permanência dos estúdios e do simpático Museu da Rádio. Desde estes anos 30 a rádio pública/estatal foi designada por Emissora Nacional de Radiodifusão Portuguesa. (4)

A tecnologia adotada na Emissora Nacional era a de onda média, seguindo-se outras transmissões em onda curta para a longa distância: ultramar e estrangeiro.   

Só em 1935 após quase cinco anos de preparação é que foi inaugurada com pompa e circunstância a Emissora Nacional de Radiodifusão Portuguesa pelo Estado Novo, tendo participado na cerimónia o Presidente da República General Carmona, o capitão Henrique Galvão, o Ministro das Obras Públicas e Comunicações – eng.º Duarte Pacheco, o técnico Manuel Rodrigues Júnior, entre outras personalidades.

A onda curta foi a nova realidade que permitiu o programa Hora da Saudade. Com este programa “[…] estabelecíamos uma forte ligação à nossa casa, à nossa terra. Durava pouco, mas sabia muito bem. O procedimento mais usual era, quando os pescadores estavam a trabalhar, o capitão ia de imediato ouvir as mensagens recebidas em directo a partir de Portugal, retransmitindo-as de seguida pelo navio”. (Capitão João Braz, entrevistado por Luís Manuel Martins (5).

Nos finais dos anos 30 a tecnologia de onda curta em Barcarena beneficiou do aumento de potência dos 2 para os 10 kw permitindo melhores captações de som e o aumento do alcance da transmissão e da receção (6).

Formalmente só em 1940 a Emissora Nacional saiu da esfera tutelar dos CTT – Correios Telégrafos e Telefones, na altura integrados no Ministério das Obras Públicas e Comunicações e hoje designados CTT – Correios de Portugal, S. A.

A mudança fez-se através do Decreto-Lei 30752. Começou então a descentralização de tecnologias e serviços com a criação de emissores: no Porto, Coimbra e Faro.

Cerca de 1944 em Castanheira do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira é instalado um emissor de ondas médias com 50 kw de potência. O objetivo foi conseguido: a difusão de programas radiofónicos da parte da manhã. Em Barcarena ficou o emissor de ondas médias para transmitir os programas noturnos, encerrando contudo as emissões antes da meia-noite.  

Nos anos 40 foram célebres as temporadas de ópera, transmitidas a partir do Teatro de S. Carlos. A emissão de música tinha origem na atuação ao vivo com a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional regida pelo maestro Pedro de Freitas Branco que animava sobremaneira o país numa altura em que não havia televisão em Portugal. Em 1936 começam as gravações em discos, tentando assim disponibilizar melodias a qualquer hora e a custos reduzidos. As novas tecnologias de então contribuem para fazer chegar aos públicos um serviço com tendência a universal.

Em 1952 o Instituto Superior Técnico recebe estúdios de gravação e emissão de programas no âmbito das conferências da NATO, realizadas em Lisboa. Chegados a 1954 é a vez do presidente da República General Craveiro Lopes inaugurar o Centro Emissor de ondas curtas e médias de S. Gabriel (7) de Pegões. Esta estação emitia para longas distâncias em ondas curtas através de dois emissores, servindo o ultramar português e o sudoeste asiático.

Em meados dos anos cinquenta introduz-se nova tecnologia permitindo a emissão e receção da Frequência Modulada (FM). Equipamentos de 100 kw em Lisboa e na Lousã são postos ao serviço da Emissora Nacional (8).

Quanto à rádio pública internacional, esta ganha visibilidade em 1957 com os estúdios no Bairro Alto, Rua de S. Marçal, inaugurados na altura da visita da raínha Isabel II.

A estereofonia em Frequência Modelada (FM) é aproveitada no tempo da primavera marcelista para a emissão de música gravada em onda média das 9 às 11 da noite e das 11 à uma e tal da manhã.

A difusão de informação e propaganda tenta influenciar a Europa nas línguas: francesa, inglesa e alemã. A Voz do Ocidente da Emissora Nacional insistia em ganhar adeptos em relação à política com as províncias ultramarinas, destacando a missão da defesa militar portuguesa. Esta Voz do Ocidente combatia as emissões clandestinas comandadas por Moscovo, aproveitando o ambiente da guerra fria.

Ficou na memória de muitos contemporâneos o slogan “Aqui,  Voz do Ocidente, Rádio Moscovo não fala verdade”. As emissões do exterior eram, por sinal boicotadas, tanto quanto possível, através dos Serviços Radioeléctricos dos CTT, organismo estatal até 1968 e empresa pública a partir de 1969. A instalação de Barcarena onde funcionara a primitiva Emissora Nacional passa a ter também a função de provocar artificialmente interferências ao sinal das rádios políticas estrangeiras, tais como a Rádio Moscovo, Voz da Liberdade (Rádio Argel) e Rádio Portugal Livre (Bucareste – Roménia).

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  1. São conhecidos as investigações e a apresentação duma patente por parte de Gago Coutinho. “Preocupando-se de igual modo com os problemas das comunicações entre o mar e a terra, escreveu sobre telegrafia sem fio, advogando que se montassem estações na costa de Portugal, de modo a salvaguardar a segurança das embarcações”. Em 1900 “Coutinho registou duas patentes de invenção em telegrafia eléctrica, uma das quais para um sistema de radiocondutor sem limalha”. (cf. fontes infra: Coutinho, Gago)
  2. O ano de 1925 marcou outra etapa de desenvolvimento das telecomunicações em Portugal com a criação da Companhia Portuguesa Rádio Marconi, chegando a ser uma das maiores redes de radiocomunicações a nível mundial, operando de Portugal a Timor.
  3. Os Serviços Radioeléctricos dos CTT são o embrião do ICP – Instituto das Comunicações de Portugal, agora com a designação de ANACOM – Autoridade Nacional das Comunicações.
  4. Com as vicissitudes da História, o nome acabou por ser alterado; atualmente a estação e museu estão fundidos na RTP – Rádio e Televisão de Portugal com estúdios e emissores na Avenida Marechal Gomes da Gosta, 37. A RTP tem ainda outras sedes, emissores e estúdios no Porto, Madeira e Açores.
  5. O programa “Hora da Saudade”, foi iniciado em 1937 pela Emissora Nacional de Radiodifusão Portuguesa. Apresentado por Curado Ribeiro, dirigia-se aos emigrantes no continente americano e aos tripulantes e pescadores dos navios bacalhoeiros na Terra Nova. (Cf. Blogue Aqui e Agora – Hora da Saudade in http://oaquieagora.blogspot.pt/2007/07/hora-da-saudade.html, acedido em 16.5.2014)
  6. Cf. RTP 75 Anos Rádio Pública Portuguesa in  http://www.rtp.pt/wportal/sites/radio/75anos/historia.php
  7. Note-se que o Arcanjo S. Gabriel é o padroeiro das telecomunicações.
  8.  Atualmente a rádio em  FM é a mais utilizada em Portugal, emitindo em cerca de 300 estações neste tipo de frequências.

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Da História das Telecomunicações na I República in Comunicar na República 100 Anos de Inovação e Tecnologia. FPC – Fundação Portuguesa das Comunicações. Lisboa: FPC, 2010

– Id. Da História das Telecomunicações no Estado Novo (1926-1974)

– Id. Da História das Telecomunicações na Democracia (1974-2010)

-Id. “Património museológico de telecomunicações: Criação e gestão em contexto”. Lisboa: FPC Códice Ano XI Série II, 2008, págs 52-67

-COUTINHO, Gago – Biografia de Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1958) in http://www.ihc.fcsh.unl.pt/pt/recursos/biografias/item/4394-coutinho-carlos-viegas-gago-1869-1958, acedido em 16.5.2014

-Id. Obras de Gago Coutinho in http://www.citi.pt/cultura/historia/personalidades/gago_coutinho/obras_de_gago_coutinho.html, acedido em 16.5.2014

-FARIA, Miguel Ferreira de – Marconi 75 anos de comunicações internacionais. Lisboa: Companhia Portuguesa Rádio Marconi, SA ; Printer Portuguesa, Ldª, 2000

-FONSECA, Moura da – As Comunicações navais e a TSF na Armada: sibsídios para a sua história (1900-1985). Lisboa: Edições Culturais da Marinha, 1988

-MARCONI, Guglielmo – Marconi em Portugal: Ciência e engenharia na génese das radiocomunicações in  http://www.ordemengenheiros.pt/pt/centro-de-informacao/dossiers/historias-da-engenharia/marconi-em-portugal-ciencia-e-engenharia-na-genese-das-radiocomunicacoes/, acedido em 16.5.2014

-MATOS, Artur Teodoro de – Transportes e Comunicações em Portugal, Açores e Madeira: 1750-1850. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 1980

-RDP Internacional in http://pt.wikipedia.org/wiki/RDP_Internacional, acedido em 16.5.2014

-ROLO, Maria Fernanda – História das telecomunicações em Portugal: da Direcção Geral dos Telégrafos do Reino à Portugal Telecom. Lisboa: Fundação Portugal Telecom, 2009

-RTP 75 Anos Rádio Pública Portuguesa in  http://www.rtp.pt/wportal/sites/radio/75anos/historia.php; acedido em 16.5.2014

-UIT – Union Internationale des Télécomunications. Du Sémaphore au Satellite. Geneve: UIT, 1965