Arquivo | Julho, 2014

COMUNICAÇÃO INTERPRETAÇÃO TÉCNICA E PAISAGÍSTICA NO ALTO DO TREVIM – SERRA DA LOUSÃ

30 Jul

“Não Há Comunicação Sem Envolvimento. […] Vejo-te sentado no portal, tendo atrás de ti a porta da tua casa […] separado do mundo, que não passa do somatório de objectos vazios. Porque tu não comunicas com os objectos, mas com os laços que os ligam” (Antoine de Saint-Exupery, 1900-1944. Pensamento in Cidadela).
O parque recetor/retransmissor de teledifusão, radiodifusão, telefonia e dados do Alto do Trevim – Serra da Lousã é um dos mais importantes do país pela paisagem e localização no topo da Serra da Lousã a 1205 metros de altitude, entre os concelhos da Lousã, Gois, Miranda do Corvo e Castanheira de Pera. Coincide com um ponto privilegiado da Meseta Ibérica.
No edifício da teledifusão trabalharam e viveram Eletrotécnicos até aos finais dos anos 80 quando as tecnologias ainda exigiam vigilância e manutenção continuadas. As inovações tecnológicas permitiram ultrapassar o paradigma dos sistemas analógicos e trouxeram como consequência a redução do volume dos equipamentos. Esta evolução, tendendo cada vez mais para a miniaturização, levou/leva ao repensar da funcionalidade dos espaços e edifícios.
Nos anos 80 foi pensada a criação dum museu central, porventura poderia tornar-se em Nacional, de tecnologias e atividades de teledifusão (1) que se situaria na cidade da Lousã, onde chegou a funcionar um espaçoso armazém com o património recolhido, não só localmente, mas em vários pontos do país. Porém, as estratégias públicas e empresariais evoluíram no sentido da redução de custos, acabando por se excluir a intensão e o projeto do referido museu.
Foi um erro, em nosso entender, uma vez que vário património acabou por vir parar a depósitos da Grande Lisboa onde os espaços de armazenamento são muito mais caros do que na Lousã. Além disso foi preciso desmantelar e transportar os emissores, alimentadores e outro equipamento de grande peso e dimensão com prejuízos para a conservação. Aquando do transporte para a capital, o camião de tão carregado teve de circular nas estradas locais entre os 20 e os 40 km horários.
Não houve quem conseguisse convencer as Administrações de que o melhor local de exposição, sobretudo para as grandes peças, era no próprio sítio de funcionamento. O edifício do Trevim, para lá do armazém na cidade da Lousã, tinha condições para isso, bastava investir num sistema de climatização, equipamento de vigilância e providenciar sobre a limpeza pontual das peças e espaço.
A inserção física de uma parte deste património no seu real contexto de funcionamento técnico com o seu interesse na ambiência paisagística permitiria uma interpretação mais atrativa. Contudo, a ideia apresentada em 1995 (2) à PT e Fundação das Comunicações não caiu totalmente em saco roto. Nesta perspetiva algum património ilustrativo ainda ficou no Trevim/Lousã onde são proporcionadas visitas pontuais, incluindo as inseridas no programa “Ciência Viva no Verão (3). A utilização dos edifícios do Trevim para a função pedagógica, científica e de lazer permite uma melhor preservação das instalações, ao invés de ficarem parcialmente devolutas e semi-esquecidas.

O alargamento do conceito de património cultural

Verifica-se, hoje em dia, uma crescente tomada de consciência, por parte das populações, sobre o alargamento do conceito de património, que se estende dos tradicionais objetos e monumentos, até à patrimonialização da paisagem e tecnologias. É o caso do Trevim com equipamento e edifícios que, ao proporcionarem uma relação com as populações, estimulam o desenvolvimento local.

Função museológica

A ex-TDP – Teledifusora de Portugal (4) concebeu um projeto de museu e, neste âmbito, reuniu importante património. Com a fusão de empresas na PT e a devolução ao proprietário de um armazém na Lousã, onde se encontrava a coleção de teledifusão, tornou-se necessário definir ou redefinir a preservação, divulgação e apresentação do espólio datado desde os anos cinquenta do século XX.
A função socio-museológica através da fruição de um património técnico vem atraindo paulatinamente a atenção de visitantes ao Alto do Trevim. Juntando a vertente paisagística (observação da orografia, flora e fauna) ao interesse nos serviços e tecnologias de comunicação é possível acrescentar mais valor ao parque do Trevim.

Uma curta lista de bens com interesse didático-pedagógico no Alto do Trevim

-Orografia e miradouro sobre as Serras da Lousã, Açor e vales adjacentes, marco geodésico, parque de edifícios, antenas e equipamento de interior entre o qual destacamos:
-Recetores/retransmissores, geradores de oscilações, -alimentadores, amplificadores, válvulas e klistrões, medidores de desvio de som, equipamento de controlo de som, monitores vídeo, auscultadores, lanternas, telefones de campanha; eventualmente, objetos pessoais e mobiliário residencial ao serviço dos Técnicos de manutenção.

Nota final

No pré-estudo de viabilidade de preservação e apresentação do património de teledifusão in loco, realizado nos anos 90 chegámos à conclusão de que, cultural e economicamente era vantajoso criar uma extensão museológica na Lousã, mais do que transferir as peças para as reservas da Grande Lisboa. Ficou-se por uma solução de compromisso entre a transferência de parte do espólio para a capital e a exposição pontual na Lousã. Porém, achamos que esta solução sabe a pouco. A Região Centro e o turismo mereciam ali o anteriormente projetado Museu da Teledifusão.

Notas:

(1) Entende-se por teledifusão o transporte do sinal de televisão em boas condições de receção pelos utilizadores.
(2) No “Estudo para-projeto de uma Extensão Museológica no Centro Emissor de Teledifusão da Serra da Lousã” / ANCIÃES, Alfredo Ramos. Lisboa: Património Museológico / Fundação das Comunicações, 1995
(3) Cf. “Ciência Viva no Verão” in http://www.cienciaviva.pt/veraocv/engenharia/eng2012/index.asp?accao=showactiventidade&id_entidade=178&id_actividade=5
(4) Empresa nascente no seio da RTP, adquirida e fundida na PT – Portugal Telecom.

Fontes:
-“7 Hotéis em Lousã, Portugal” in http://www.booking.com/searchresults.pt-pt.html?aid=318615;label=New_Portuguese_PT_EMEA_5226346105-AMRJrKK4zw8mtf6ubtxHNAS46623234145%3Apl%3Ata%3Ap1%3Ap2%3Aac%3Aap1t1%3Aneg;sid=9ae74e2a1b29e3409842f7f058f8f790;dcid=1;city=-2168225;hyb_red=1;redirected_from_city=1;src=city, acedido em 18.7.2014. Obs.: Na Região existem outras opções consultando a WWW e os serviços de Turismo da Lousã, Gois, Miranda do Corvo e Castanheira de Pera.
-Algumas imagens do Trevim/Lousã in http://pmract.blogspot.pt/2012/07/o-sucesso-da-activacao-misterio-5-na.html acedido em 16.7.2014
-“Caracterização da Serra da Lousã” in http://www.cm-lousa.pt/caracterizacao_da_serra_da_lousa?m=c73, acedido 17.7.2014
– “Serra da Lousã” in http://pt.wikipedia.org/wiki/Serra_da_Lous%C3%A3, acedido 17.7.2014
-“Estudo para-projeto de uma Extensão Museológica no Centro Emissor de Teledifusão da Serra da Lousã” /ANCIÃES, Alfredo Ramos. Lisboa: Património Museológico / Fundação das Comunicações, 1995
-“Rádio – o que é” in http://www.aminharadio.com/radio/radio_q, acedido em 17.7.2014
-“Restaurante Museu da Chanfana – Miranda do Corvo” in http://boacamaboamesa.expresso.sapo.pt/boa-mesa/escolha-escape/mesa-com-jose-quiterio-restaurante-museu-chanfana-28335, acedido 17.7.2014.
-“Visita ao Centro de Emissão do Trevim” in http://www.cienciaviva.pt/veraocv/engenharia/eng2012/index.asp?accao=showactiventidade&id_entidade=178&id_actividade=5 .

* P.S. O autor deste blogue é sócio do Grupo de Amigos do Museu das Comunicações e da Casa do Conselho de Penedono. Foi colaborador dos CTT, Museu dos CTT, PT, ICP-Anacom, Fundação Portuguesa das Comunicações, Museu das Comunicações e, pontualmente, da coleção/Casa das Máquinas Falantes. A nível associativo colaborou com: a) A BAD – Associação dos Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas, como coordenador de Grupo de Trabalho e visitas a locais de interesse cultural e documental; b) O Conselho Superior de Bibliotecas Arquivos e Museus com análise e sugestões de disciplinas e cursos, através da BAD; c) O CICTSUL – Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa como membro convidado; com investigação, edição de artigos e monografias em co-autoria e individualmente; d) O GAM-C – Grupo de Amigos do Museu das Comunicações como sócio e secretário; com a edição de artigos e coordenador de grupo de visitas guiadas a locais de património cultural, artístico e história das comunicações; e) O MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia como sócio e secretário da Mesa da Assembleia; coordenador de grupo de visitas de interesse patrimonial, f) A CCP – Casa do Conselho de Penedono como sócio e secretário da Mesa da Assembleia.