Arquivo | Dezembro, 2014

26. SINAL MENSAGEIRO E COMUNICAÇÃO NO ANO ZERO/UM E NA ATUALIDADE

20 Dez

sábado, 20 de dezembro de 2014

“Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra (1). Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria.

Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria […] que se encontrava grávida.

E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria.

Na mesma região encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo [… mensageiro] apareceu-lhes […] e disse-lhes: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura […]. Paz na terra aos homens do seu agrado»”. (cf. Lucas 2,1-14).

A terminologia de «sinal» evocada no texto de Lucas (2,12)   e em contexto de Natal, prossegue o periodo do Advento revelando a “chegada” do “Messias”.

Em nosso entender os sinais são a essência das comunicações e neste ponto de vista cremos que Cristo continua a ser O Sinal mais divulgado, quer na quantidade de devoções/ritos diários e festivos, quer nas diversas expressões patrimoniais, artísticas e comunicacionais (2).

UM ABRAÇO. BOM NATAL 2014, ANO PRÓSPERO 2015.

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(1)        Leia-se todo o mundo romano.

(2) Entendemos como expressões patrimoniais e artísticas as referências de arquitetura, pintura, desenho, escultura, escrita, teatro, cinema, rádio e televisão. A Arte tem a função comunicadora por excelência, porventura antes, durante e depois da execução e da fruição estética.

P.S. Cf. também “Nova Esperança” in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2009/12/25/J_C100_-NASCEU-_BB00_-BOM-ANO-A-TODOS-.aspx 

25. PROTO-MUSEU POSTAL E BIBLIOTECA

15 Dez

 “Pode haver memória e inteligência sem amor, mas não pode haver amor sem memória e inteligência” (1)

Para organizar e preservar a primeira recolha do Museu Postal e Biblioteca foram reservados em 1878 dois pequenos móveis, o que denota um interesse (fora de tempo ou “après la lettre”) do gosto, tipo gabinete de curiosidades. O Museu Postal começa, por assim dizer, com um pequeno móvel contendo apenas trinta espécimenes de eleição, porventura os que apresentavam uma estética mais apelativa, não excluindo contudo a memória da função técnica. Outra particularidade: Este Museu surge-nos desde logo associado a um outro órgão de memórias e descrições, i. é, a Biblioteca Postal, instalada num móvel idêntico ao do Museu Postal.

Subsistem ainda estes dois móveis, etiquetados de  origem e preservados, constituindo assim o “core memory” ou o primeiro cartão de identidade da função de transportes e comunicações postais, telegráficas e de faróis. Integram, hoje, o Museu das Comunicações, também o Arquivo Histórico e a Biblioteca postais e de telecomunicações. Este património sobreviveu ao museu estático da época, à vitrificação de raridades, de coisas belas, de valor contemplativo e artístico, ao que tudo parece indicar, para ser usufruído  por uma minoria de individualidades – técnicos superiores, gestão de topo e visitantes diferenciados.

Caracterizou-se o primeiro período do Museu pelos ideais de romantismo, contudo acompanhado por um certo surto de desenvolvimento das comunicações e da ciência, de que são exemplos os seguintes acontecimentos: Em 1870 é lançado o cabo submarino de Portugal a Inglaterra; 1871 realizam-se no Casino Lisbonense as famosas Conferências Democráticas. Cria-se a Aliança Democrática Socialista (então influenciada pelo socialismo utópico europeu) e é publicada a obra Causas da Decadência dos Povos Peninsulares que Antero de Quental expôs brilhantemente nas Conferências do Casino. Ramalho Ortigão inicia a publicação das Farpas; 1872 iniciam-se os primeiros movimentos grevistas portugueses. Saem a lume os Fidalgos da Casa Mourisca, de Júlio Dinis e a Teoria do Socialismo, de Oliveira Martins, bem como A Teoria da História Literária Portuguesa, de Teófilo Braga. No pensamento político e de cidadania é iniciada a publicação do jornal socialista, O Pensamento Social; 1873 conclui-se a linha-férrea de Évora a Estremoz; 1875 é fundada a Sociedade de Geografia de Lisboa – instituição também ligada ao processo de recolha e preservação de memórias; Oliveira Martins funda a Revista Ocidental. Eça de Queiroz publica O Crime do Padre Amaro e Camilo Castelo Branco inicia a publicação d` As Novelas do Minho; 1877 é construída a ponte de D. Maria Pia, no Porto e é publicado O Helenismo e a Civilização, de Oliveira Martins.

Em 1878 surge a criação destes órgãos de memória e documentação – Museu e Biblioteca postais e de telecomunicações. Ainda neste ano são lançadas as ambulâncias postais no caminho-de-ferro do leste; norte e sueste e são criados os bilhetes-postais. A Biblioteca é dotada com 400 volumes e o Museu com os ditos 30 espécimes.

Por esta altura a Direção Geral dos Correios reforça as “ordens para que os carteiros nunca se apresentem em serviço sem o devido uniforme […] renovam-se os contratos para o serviço de transporte de malas transatlânticas com as companhias «Royal Mail Steam Packet» e «Pacific Steam Navigation» […]. Por navios receberam-se de differentes paizes 21:336 cartas […], 349 jornaes e impressos […]”. Ainda entre 1876/78 “O aumento na cifra dos impressos selados [e jornais …] é muito notável” com um número que atinge as 3.018:005 unidades. (2)

Sobre as telecomunicações e seu contexto tecnológico precedente e posterior à criação do Museu, junto apresentamos as seguintes notas (3): Na primeira década do século XIX é criada a telegrafia visual/semafórica que durará até 1855, data em que surge a telegrafia elétrica (4). Destas telegrafias foram integrados alguns espécimes do século XIX no Museu Postal, tais como: Relés, translatores, transmissores, besoiros, bússolas, comutadores, para-raios, despertadores, avisadores, recetores, telégrafos, coesores, coladores, reóstatos, galvanómetros, óculos de elongação, dispositivos de regra de Ampere, magnetos, fusíveis, isoladores, pilhas, tubos de Crooks, máquinas pneumáticas, demonstradores de condutibilidade, pontes de Wheatstone, bobinas de indução e aparelhos de campo girante.

Outra curiosidade: Reportando-nos às primeiras dezenas de espécimenes recolhidos pelo Museu Postal verificamos que todos são da função telegráfica/telecomunicações e não da função postal, como seria de esperar, atendendo à designação do Museu em referência. (5)

Em 1879 Teófilo Braga publica as Soluções Positivas da Política Portuguesa. Inicia-se a edição do semanário Voz do Operário, ligado aos manipuladores do tabaco.

Em 1882 instala-se em Portugal a 1ª rede telefónica pública; 1886 surge o Mapa-Cor-de-Rosa e toda a crise a ele relacionado, e, em 1890 o Ultimato inglês. É neste cadinho de desenvolvimento técnico e cultural que se cria um Museu, que nós adjetivamos de proto-Museu no sentido de primeiro esboço museológico e biblioteconómico na temática das tecnologias de comunicações. Mas a vertente romântica e as crises de finais do século começam a ceder a preocupações do dia-a-dia. Nesta ótica, o Museu vitrificado num móvel, vai permanecer estático durante décadas. É também altura do pensamento filosófico positivo, seguido pela arte e pensamento modernista. Este estilo e mentalidade não foram de bom sinal para as memórias e patrimónios tradicionais. Também as crises económicas, os movimentos políticos e as necessidades primárias a satisfazer vão condicionar a ação do que não se apresenta imediatamente rentável. Fica, assim, pendente o desenvolvimento do Museu da temática  postal, telegráfica e faróis, até aos anos 30 (do século XX). Nesta altura o projeto museológico é repensado pelo Estado Novo como se nunca tivesse existido uma ideia e ações conducentes à criação de um museu na área dos transportes e comunicações.

Os altos responsáveis do Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações e CTT (entre meados dos anos 30 a 1947) demonstraram, pois, uma desconsideração e/ou desconhecimento da herança patrimonial precedente; ou quiçá, a súbita vontade, de partir para uma realidade “nova” sem referência ao projeto museológico anterior, terá sido propositada no sentido de apagar as marcas herdadas dos Governos e Regimes precedentes (6).

Notas:

(1) A esta citação, nós acrescentaríamos ao substantivo “memória” a adjetivação: oral/documental/genética, porque consideramos que o amor não resulta somente da inteligência mas também de uma memória que vem sendo impressa nos genes dos seres vivos pela evolução. E com isto não queremos dar mais ênfase à teoria evolucionista do que à criacionista, nem vice-versa. (cf. A. Anciães in http://beckerhistoria.blogspot.pt/2009/12/documentomonumento-le-goff-historia.html?showComment=1418480414533#c1584711386110503503, acedido em 13.12.2014)

(2) DIRECÇÃO Geral dos Correios; BARROS, Guilhermino Augusto de – Relatório Postal do Anno economico de 1877-1878 […], p. 156-157; anexo ao cap. X, p. II. Este Relatório apresenta informação prolixa em números e organização da Direcção Geral dos Correios nos anos em que foi criado o que nós designamos por proto-Museu Postal e sistema documental que em 1947 dariam origem ao Museu dos CTT.

(3) O proto-Museu Postal não deixa transparecer na sua designação a vertente  de telecomunicações, tendo em conta que a totalidade das 30 peças com que foi criado eram da função de telecomunicações. (cf. inventário das 30 primeiras peças inventariadas no Museu das Comunicações, sucessor do Museu Postal).

(4) Em certos casos o uso desta telegrafia visual/semafórica, não elétrica, estendeu-se por mais alguns anos.

(5) Cf. I Livro de Inventário do Património Museológico do Museu das Comunicações / Fundação Portuguesa das Comunicações.

(6) Para mais informações sobre a criação deste proto-Museu, cf. http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2013/11/11/GEST_C300_O-DE-COLE_C700D500_ES-DE-CORREIOS-E-TELECOMUNICA_C700D500_ES-_2F00_-FASE-ROM_C200_NTICA.aspx, acedido em 15.12.2014

Referências bibliográficas:

-AFONSO, A. Martins – Breve História de Portugal. Porto: Porto Editora, Ldª, 3ª ed., s.d.;

–ANCIÃES, Alfredo; ALMEIDA, Joel de; CORDEIRO, Ricardo; MOUTA, Margarida; SALDANHA, Júlia; SANTOS, Alva; VARÃO, Isabel; WEBER, Cristina – Comunicar na República: 100 Anos de Inovação e Tecnologia. Lisboa: FPC – Fundação Portuguesa das Comunicações, 2010;

-ANCIÃES, Alfredo

Da História das Telecomunicações na I República” in ANCIÃES, Alfredo et. al. – Comunicar na República: 100 Anos de Inovação e Tecnologia. Lisboa: FPC – Fundação Portuguesa das Comunicações, 2010;

-Id. Da História das Telecomunicações no Estado Novo” (1926-1974);

-Id. “Património museológico de telecomunicações: Criação e gestão em contexto”. Lisboa: FPC Códice Ano XI Série II, 2008, págs 52-67;

-Id. O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações;

-BARROS, Guilhermino Augusto de – Relatório do Director Geral dos Correios, Telegraphos, Pharoes e Semaphoros relativo ao anno de 1889 precedido pela continuação da Historia dos Correios até ao fim de 1888 e uma memoria historica acerca da telegraphia visual, electrica, terrestre, maritima, telephonica e semaphorica, desde o seu estabelecimento em Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1891;

-CTT – O Museu dos CTT Português. Lisboa: Ed. dos Serviços Culturais dos CTT, 1973;

-DIRECÇÃO Geral dos Correios; BARROS, Guilhermino Augusto de – Relatório Postal do Anno economico de 1877-1878 precedido de uma memoria historica relativa aos correios portuguezes desde o tempo de D. Manuel até aos nossos dias. Lisboa: Lallemant Frères, Typ. Fornecedores da Casa de Bragança, 1879.

-SERRÃO, Joel – Cronologia Geral da História de Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 4ª ed., 1980

Documentos Web acedidos em 13.12.2014

-ABREU, José Guilherme – “A problemática do momunento moderno” in http://www.apha.pt/boletim/boletim1/pdf/Aproblematicadomonumento.pdf

-CONTADOR (O) de Histórias – “Documento – Monumento” in http://beckerhistoria.blogspot.pt/2009/12/documentomonumento-le-goff-historia.html?showComment=1418480414533#c1584711386110503503

-Gabinetes de Curiosidades – in http://pt.wikipedia.org/wiki/Gabinete_de_curiosidades

-Le GOFF, Jacques in

-NAYARA, Emerick “Le Goff, Jacques – Documento Monumento” in http://www.ebah.pt/content/ABAAAewPYAJ/38096406-le-goff-j-documento-monumento,