Arquivo | Maio, 2015

44. OS DESCOBRIMENTOS E A VOCAÇÃO DE PORTUGAL

31 Maio

1)Um Jardim Botânico de referência

2)Os Jesuítas e o ensino científico

3)A Toponímia no Chiado

4)O exemplo dum Naturalista

5)O exemplo dum Bandeirante.

 1)JARDIM BOTÂNICO DE REFERÊNCIA

O Jardim Botânico da Escola Politécnica, em Lisboa, junto da Rua do mesmo nome, surge como resposta a um novo ambiente social, económico e científico. Proporciona além destas valências, a fruição de uma atmosfera romântica, o recreio e o lazer, apresentando uma arquitetura paisagística em socalcos, veredas, cascatas e pequenos lagos.

Neste Jardim foram introduzidas espécies da Austrália, Nova Zelândia, China, Japão e América do Sul, procurando uma representação de várias geografias, sobretudo dos locais por onde Portugal cunhou caminhos e permanências na sua História.

Uma árvore histórica – do correio – a acacia karroo heyne.

Trata-se duma espécie que, possivelmente o acaso, e o processo histórico marcaram com um distintivo ligado às comunicações marítimas dos Descobrimentos e primeiras viagens entre continentes. Para reforço e validação desta marca histórica das comunicações e do correio, a própria República da África do Sul erigiu nos finais do século XX, um monumento para evocar este entreposto postal baseado nos elementos da Natureza e na arte dos navegantes. Numa destas espécies, originária da República da África do Sul e suas imediações (Moçambique e Zimbabwe -ex-Rodésia) os portugueses colocavam as suas correspondências, abrigadas dentro dum botim, servindo como caixa postal. Deixavam e recolhiam nesta árvore e botim do correio, informações importantes sobre a viagem, a rota marítima e outras informações, quiçá, de carater mais doméstico, entre famílias e a corte portuguesa.

Uma destas árvores – a acacia karroo heyne encontrava-se próxima do Cabo da Boa Esperança, na Baía de São Brás, atual Mosselbay, onde a Comunidade da África do Sul mandou construir um monumento in situ. O Património Museológico de Correio, da Fundação Portuguesa das Comunicações não podia ficar indiferente a este memorial e mandou executar uma réplica do referido botim do correio que era, não sei ao certo, se colocado na ramagem, se enterrado junto ao tronco para que os navegadores, pré-avisados soubessem novas do seu interesse e do Reino. O certo é que árvore, o botim e o local da Baía de São Brás estão associados às comunicações pioneiras entre continentes: Ásia, África e Europa. Por sua vez, o Grupo de Amigos do Museu das Comunicações apadrinhou uma destas espécies da Acacia Karroo Heyne, existente no Jardim Botânico da Escola Politécnica, onde pode ser apreciada, e o modelo de botim pode ser visitado na Exposição Permanente do Museu das Comunicações na Rua do Instituto Industrial nº 16, 1200-225 Lisboa, telefone 21 393 5000

2-OS JESUITAS E O AMBIENTE CIENTÍFICO NA SEQUÊNCIA DAS PRIMEIRAS VIAGENS INTERCONTINENTAIS

A comunidade esteve primeiro em Santo Antão, na atual Baixa Pombalina. Mas quando as instalações começaram a ser exíguas, mudaram-se para o Convento de Santo Antão-o-Novo, correspondente ao atual Hospital de S. José. Ali funcionou uma espécie de Universidade para a comunidade religiosa e civil. Como os Descobrimentos portugueses tinham aberto novos desafios e novos espaços geográficos, a Companhia preparou-se para tais desafios, investindo numa  formação cuidada, incluindo matérias de: Astronomia, Matemática, Botânica e Zoologia, além das tradicionais Humanidades. Continuando a crescer, foi preciso pensar em novas instalações: A Trindade e o Alto da Cotovia foram os sítios escolhidos para a expansão. No Noviciado da Cotovia (A Cotovia era o nome dado a esta zona de Lisboa, junto à atual Rua da Escola Politécnica) construíram um Colégio, onde hoje figuram os museus da Escola Politécnica, incluindo o Jardim Botânico. Com o aumento numérico da comunidade lisboeta sentiram falta de instalações, por isso, solicitaram ajuda ao Rei D. João III. Foi-lhes destinada, então, a Ermida da Confraria de S. Roque.

Irmandades de S. Roque e outras ali existentes: Estas irmandades aceitaram a vinda dos Jesuítas que instalaram aqui uma Casa Professa e se responsabilizaram em manter uma capela – a de São Roque e a respetiva designação que permanece até ao presente com arquivo autónomo e instalações junto à sacristia. As restantes irmandades ali residentes também realizaram a inventariação dos bens no seguimento da extinção dos Jesuítas.

A AULA DA ESFERA

Resumo a partir de uma visita guiada do Prof. Henrique Leitão (Fac. Ciências U. L.) e Paula Moura Pinheiro (RTP).

Ensino ligado aos Descobrimentos, explorações e viagens marítimas, antes da reforma do Marquês de Pombal. Não obstante a Reforma do Ensino promovida pelo Marquês de Pombal, as novas investigações têm vido a revelar que a dita Reforma Pombalina foi implementada sobre (ou cortando com) uma lenta Revolução do ensino em curso pelos Jesuítas. Cerca de 20.000 alunos estariam envolvidos no ensino jesuítico que incluía: Náutica, em geral, cartografia, engenharia militar, cosmografia, álgebra, religião e conhecimentos diversos.

Para conseguir os seus desígnios, o Marquês de Pombal implementou uma “propaganda” em como os Jesuítas “atrasavam o ensino científico”, quando era precisamente o contrário. Esta opção de propaganda foi uma opção política para dar substância à centralização do poder real. Houve “um momento de fulgor”, uma rede de cerca de 800 estabelecimentos de ensino em todo o mundo, segundo Rómulo de Carvalho e o prof. Henrique Leitão.

“Caso único na História da ciência europeia. […] Podia-se chegar a Deus pela Bíblia ou pelo livro da Natureza”. O processo do caso de Galileu e, poucos mais, parecem ter sido casos pontuais. Este centro seria no século XVII “o centro mais importante de ciência do mundo”. Rómulo de Carvalho, secundado pelo prof. Henrique Leitão, dizem que “o ensino científico acabou abruptamente em Portugal depois da expulsão dos Jesuítas” […]. No complexo do Hospital de São José, hoje sala com imensa História, houve “170 anos ininterruptos [1690-1759] de aulas”, o que parece ser uma situação rara, senão única, em termos mundiais da História da Ciência.

Ali se divulgaram os primeiros instrumentos náuticos, telescópios, os cursos de mecânica etc. O flamengo / belga Gerhard Mercator (1512 – 1594), considerado o maior cientista da cartografia moderna, tal como outros, eram ali estudados com aulas em português e abertas à população. A acusação do Marquês de Pombal de que não havia ensino científico em Portugal, era totalmente falsa. O Marquês utilizou essa “arma de arremesso político”. Os riquíssimos azulejos da Aula da Esfera, que podem ser revisitados, revelam os diversos equipamentos de ciência e técnica e o e ensino ali implementado.

Fonte: in  http://www.rtp.pt/play/p1623/e172050/visita-guiada, acedida em 28.5.2015

AS AULAS MAYNENSES

O padre José Mayne.

Também as aulas maynenses do padre José Mayne no Convento de Jesus, atual Academia de Ciências revelam o ensino científico e religiosos dos Jesuítas. Neste local do Convento de Jesus funcionou o primeiro Museu Nacional com peças diversas, inclusivamente as provenientes do Brasil, recolhidas nas célebres explorações do Naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira {1756 – S. Salvador da Baía, Brasil (com formação em Coimbra) e falecido em Lisboa, 1815}.

3-A TOPONÍMIA DO CHIADO LIGADA ÀS EXPLORAÇÕES CIENTÍFICAS AFRICANAS

Serpa Pinto: (1846, Cinfães + 1900) foi militar, cientista, governador e explorador nas terras de África, no contexto do conhecimento do continente africano das terras “entre Angola e a Contra-Costa” na sequência da apresentação do mapa português Cor-de-Rosa que precedeu o ultimatum inglês a Portugal.

Homenagens: Em reconhecimento pelos seus serviços no conhecimento e preservação dos territórios portugueses, Serpa Pinto bem como outros exploradores e cientistas: Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e José de Anchieta foram homenageados com a atribuição dos seus nomes a ruas da zona do Chiado. Muitos dos intervenientes destes feitos históricos que levaram à exploração geográfica e científica entre Angola e a Contra-Costa morreram ou desertaram durante este feito.

As missões de conhecimento muito difíceis juntaram: Além de população que servia como carregadores, pisteiros e ajudantes; as expedições contavam com: Cartógrafos, geógrafos, meteorologistas, colectores de materiais da Natureza para estudo. Chegaram a andar perdidos por diversas vezes, numa ocasião por mais de 40 dias seguidos entre a selva e os pântanos. Percorreram, em situações extremamente adversas, mais de 8.300 km o que lhes valeu terem sido recebidos como heróis em Portugal e Espanha onde Ivens e Capelo deram conferências e também em França onde receberam a Grande Medalha de Honra.

 4-O EXEMPLO DUM NATURALISTA NA EXPANSÃO DO MUNDO LUSÓFONO

O Naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira colaborou no envio de peças do Museu de História Natural de Lisboa à Universidade de Coimbra, que recebeu uma lista e acervo de produtos naturais e industriais provenientes de diferentes partes do Império. Entre os itens recolhidos e tratados, estão ornamentos, armas de tiro, instrumentos das artes e ofícios e muitos espécimes e documentos de Zoologia, Botânica, Ciência e Técnica, hoje espalhados por Lisboa, Coimbra e outras cidades europeias.

Domingos Vandelli que adotou Portugal e aqui foi adotado também esteve na base do plano da concentração em museus dos vários patrimónios de exploração dos territórios ultramarinos a fim de instruir os alunos da História Natural. Nos reinados de D. José e D. Maria I foram enviadas expedições para recolher dezenas de milhares de peças e documentação. Domingos Vandelli expõe a suas ideias de que não há nação “[…] que mais necessite de um Museu Nacional, para nele conhecer as produções da natureza, e seus usos, do que aquela que possua tão vastos domínios em Ásia, África e América”, como é o caso de Portugal.

Fontes:

-ARQUIVO HISTÓRICO do Museu Bocage (Lisboa) – ARF – 26a Alexandre Rodrigues Ferreira. Relação de produtos naturaes e industriaes que deste Real Museu se remetterão para Universidade de Coimbra em 1806

-COUTINHO, D. Rodrigo de Souza – Memória sobre o melhoramento dos domínios de Sua Majestade na América (1797 ou 1798) in: Textos políticos, económicos e financeiros (1783-1811). Intr. e org. de Andrée Mansuy Diniz Silva. Lisboa: Banco de Portugal, 1993. v. 2

-NOVAIS, Fernando A. – Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial – 1777-1808. São Paulo: Hucitec, 1983.

-CARDOSO, José Luís (coord.) – A economia política e os dilemas do Império Luso-brasileiro (1790-1822). Lisboa: CNPCDP, 2001

-RAMINELLI, Ronald – Viagens ultramarinas; monarcas, vassalos e governo a distância. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2008. cap.6

-VANDELLI, Domenico Vandelli. Memória sobre a utilidade dos museus de História Natural In: memórias de História Natural – Domingos Vandelli. Introd. e coord. editorial de José Luís Cardoso. Porto: 2009-05-19.

5-O EXEMPLO DUM BANDEIRANTE EXEMPLAR NA HISTÓRIOA DA EXPANSÃO DO BRASIL

Pedro Teixeira é ainda pouco conhecido, quer nos programas escolares, quer no senso comum ou histórico dos portugueses. Contudo esta figura é das mais relevantes na estirpe dos heróis que fizeram o Brasil. Felizmente também, esta figura tem vindo recentemente a ser recuperada. “Vale mais tarde do que nunca”, como diz a gíria popular. Teixeira  nasceu cerca de 1585 em Cantanhede e rumou ao Brasil em 1607, onde se entregou a todo um esforço de mais de trinta anos da sua vida, tendo falecido no ano de 1641, pouco tempo após Portugal ter retomado a independência em relação à Corte dos Filipes de Espanha. Teixeira não é o único nome sobre o qual devem repousar os louros do acréscimo de cerca de metade da área territorial do Brasil mas foi o principal organizador e o lider do desbravamento do rio Amazonas, afluentes e regiões afins, nas quais fez reconhecimentos e marcação do território em nome do Reino de Portugal, pese embora o facto de, na altura, Portugal estar sob o domínio dos Filipes.

Do Governador da Capitania do Maranhão, Jácome Raimundo de Noronha recebeu ordens e alguns meios que lhe permitiram completar a exploração, Amazonas acima, até à cidade de Quito, já na capital do actual Equador. Com uma frota composta por cerca de 50  grandes canoas, setenta soldados e 1200 Índios com flechas. Índios estes que viram em Pedro Teixeira um lider reto e humano, tendo cativado este povo com a sua personalidade e hospitalidade, sendo que ficou conhecido na comunidade como o «Homem Branco, Bom e Amigo».

Como militar participou nas lutas contra os franceses, holandeses e ingleses que disputavam negócios e terras no Brasil. Recentemente, em finais de 2009, a sua figura foi homenageada no Senado Brasileiro. Por esta altura Aloízio Mercadante, Senador, implementou “um movimento para resgatar a memória de Pedro Teixeira”. A sessão de homenagem teve lugar em Brasília no Senado Federal para comemorar os 370 anos da expedição de Teixeira, o “desbravador” da Amazónia. Diz Mercadante, lider da bancada do PT que “A Pedro Teixeira se deve quase metade do território” do imenso Brasil.

Além da comemoração dos 370 anos Mercadante liderou o Projecto Lei para que o nome de Pedro Teixeira venha a ser inscrito no chamado Livro de Aço, situado no Panteão da Liberdade e Democracia em Brasília, bem como propõe a inclusão nos curriculos escolares. Sendo inconcebível esta lacuna, sobretudo em Portugal. Honra seja feita a Mercadante promotor da proposta, revelando-se um patriota que reconhece os heróis do seu país que proporcionaram um dos maiores países do mundo; que está em progresso e é dos mais respeitáveis, muito por causa do valor da Amazónia no contexto mundial.

Em relação a marcas distintivas de memória e existentes em Portugal referentes a Pedro Teixeira, tenho conhecimento do “Casal Pedro Teixeira”, situado na Rua de Nossa Senhora da Ajuda em Lisboa, lugar onde foram construídas as denominadas cozinhas D`El Rei. Não sei ao certo se este Casal fora  propriedade do próprio Pedro Teixeira ou se em sua memória lhe deram este nome. Acrescente-se que as Cozinhas D`El Rei e Rua do mesmo nome se encontram em Ruas e terrenos contíguos ao “Casal e Estrada Pedro Teixeira” no Alto da Ajuda.

Toponímia: Além do Casal “Pedro Teixeira” no Alto da Ajuda, há ainda a “Rua Capitão-Mor / Pedro Teixeira / Conquistador do Amazonas / Século XVII” no Restelo. Para lá destes distintivos de memórias, em Lisboa; no município de Cantanhede encontra-se a estátua de grandes dimensões, situada no Largo do mesmo nome (V. imagens). Em Cantanhede encontra-se ainda uma escola com o nome “Escola Pedro Teixeira”. A empresa de telecomunicações Portugal Telecom  estabeleceu um protocolo com vista a premiar os melhores trabalhos sobre a vida e obra deste explorador. Os prémios serão dados aos melhores trabalhos, quer realizados em Portugal, quer no Brasil. Que seja feita a devida homenagem.

Fontes:

-PINTO, Orlando da Rocha – Cronologia da Construção do Brasil  1500-1889. Lisboa: Livros Horizonte, Ldª, 1987

-AMARAL, Manuel; TORRES, João Romano – Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico”, Vol III, 2000-2009

-PINTO, Pedro – O Último Bandeirante / Lisboa: A Esfera dos Livros, 3ª ed., Abril 2009.

Fontes em linha: http://www.brasilescola.com/biografia/august-de-saint-hilaire.htm; http://www.cm-cantanhede.pt/; http://www.flickr.com/photos/vitor107/64589083/; www.cantanhede.ma.gov/br/2009/index.php; www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=245827; http://www.flickr.com/photos/vitor107/64589083/, http://www.cictsul.ul.pt/; www.triplov.com; http://cumpriraterra.blogspot.pt/2013/09/pedro-teixeira-o-bandeirante.html  / Pedro Teixeira in  http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2010/01/10/PEDRO-TEIXEIRA-QUAL-NOVA-ESPERAN_C700_A.aspx#comments  acedidas em 28.5.2015

Tags.: Alexandre Rodrigues Ferreira, Aula da Esfera, Aulas Maynenses, Domingos Vandelli, Explorações científicas africanas, Jardim-Botânico da Escola Politécnica, Pedro Teixeira, Serpa Pinto

Alfredo Ramos Anciães, Maio de 2015

43. AQUILINO RIBEIRO: FORMAS DE AMOR DE LUTA CÍVICA E DE COMUNICAÇÃO

23 Maio

1-Nota biográfica.

2-O Amor pela Natureza e a generosidade altruística.

3-O Amor pela luta cívica em “Quando os Lobos Uivam”.

4-O Amor pela sustentabilidade/biodiversidade: A luta contra o liberalismo e o regime vigente.

5-O amor solidariedade e o amor que perdoa.

Palavras-chave – Missão e Ética: Quase toda a vida de Aquilino foi dedicada à Missão que ele próprio resumiu nos finais dos seus dias – “mais não pude”. A base de mudança para a missão e ética em Aquilino assenta na promoção dos valores de: liberdade e melhoria das condições de vida através da luta cívica e do trabalho “alcança quem não cansa”, cultura, preservação da Natureza e conduta sem hipocrisias.

1-NOTA BIOGRÁFICA

Aquilino nasce em 1885, no Carregal, Sernancelhe e morre na capital, em 1963. Em 1933, recebe o Prémio da Academia das Ciências de Lisboa e, em 1935 é eleito sócio correspondente da mesma Academia. Em 2007, a Assembleia da República aprova uma homenagem, incluindo a transferência do corpo com honras de Estado para o Panteão Nacional de Santa Engrácia.

Originário e profundamente beirão, aos 10 anos, faz exame da Escola Primária no Colégio de Nossa Sra. da Lapa e, aos 15, encontra-se no “Colégio Roseira”, de Lamego. Após um curto intervalo de tempo, quando estuda Filosofia em Viseu, transfere-se para o “Seminário de Beja”. A falta de vocação leva-o a abandonar o Seminário e vir para Lisboa, aos 18. Um ano depois regressa a Soutosa mas aos 21 anos está novamente em Lisboa, desenvolvendo uma ação de cariz ideológico-republicano e colaborando com o jornal “A Vanguarda”.

Em 1907, inicia a publicação de livros, onde denota uma intervenção na esfera política, com o conto “A Filha do Jardineiro” em parceria com José Silva.  Esta obra de ficção tem como objetivo a caricatura do regime monárquico vigente, através da análise de figuras públicas. Ainda em 1907, adere à Maçonaria. Pouco tempo após é preso e acusado de anarquista. Consegue evadir-se da prisão e prossegue contactos com a Maçonaria, incluindo a vertente carbonária. Em 1910, encontra-se a estudar Letras na Sorbonne, vindo a Portugal após a Revolução do 5 de Outubro. O relacionamento com Grete Tiedemann leva-o à Alemanha, onde reside durante alguns meses (1912/1913) e casa.

Em 1914, nasce o filho Aníbal Aquilino Fritz, que veio a ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Entre 1915 e 1918, exerce funções de professor no Liceu Camões. Segue-se outro período intenso, na Biblioteca Nacional, como na produção literária de “Terras do Demo”, direção da revista “Seara Nova”, publicação “O Malhadinhas”; “Andam Faunos pelos Bosques” e “Estrada de Santiago”, até que entra na revolta de 1927, em Lisboa. Participa no movimento militar republicano contra a Ditadura Militar e na revolta de Pinhel em 1928.

Consequentemente, procura Paris para se exilar. Em 1929, casa em segundas núpcias, com a filha do Presidente da República, Bernardino Machado. Continua a atividade de escrita regular de livros, destacando-se, nos anos 30, “O Homem que Matou o Diabo” e “Batalha Sem Fim”. Fundador e presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores nos anos cinquenta. Prossegue a produção de várias obras, entre as quais “A Casa Grande de Romarigães” (1957) e “Quando os Lobos Uivam” (1958). Neste ano de 1958 é nomeado sócio efetivo da Academia e torna-se militante da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.

Proposto para Prémio Nobel da Literatura em 1960

Entre um leque extenso de proponentes encontram-se nomes tais como: José Cardoso Pires; David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Alves Redol e Virgílio Ferreira. Com uma obra literária composta, grosso-modo, por contos, romances, novelas e artigos em periódicos, desenvolve uma linguagem vernácula e antiga em desuso e difunde termos pouco conhecidos, enriquecendo, sobremaneira, o vocabulário e a literatura de expressão portuguesa. Concluindo, na sua obra literária perpassam contextos e costumes, com relevância para modos de fazer tradicionais.

A propósito do Nobel da Literatura em 1998, José Saramago disse: “Se Aquilino Ribeiro fosse vivo quem o recebia era ele”.

Alcança quem não cansa era o ex-libris ou a visão/esperança de Aquilino.

Em relação ao ex-libris, se hoje Aquilino viesse à Terra possivelmente ficaria espantado por ter conseguido muito mais do que o esperado, tendo em conta um “Centro de Estudos Aquilino Ribeiro” (na Universidade Católica / Viseu); destaques no “Instituto Camões, da Cooperação e da Língua Portuguesa” (Lisboa), em Instituições de Ensino Secundário e Superior; representação na estatuária e na toponímia e um lugar no memorial do Panteão Nacional de Santa Engrácia, aprovado pela Assembleia da República, para lá de tantas homenagens que continuam a fazer-lhe, nomeadamente em visitas: à Fundação com o seu nome, em Soutosa; em geral às “Terras do Demo”: Sernancelhe, Penedono, Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira, Aguiar da Beira, no Distrito de Viseu; e à “Casa Grande de Romarigães” no concelho de Paredes de Coura.

“Mais não pude”: Foi o epitáfio sugerido pelo próprio Aquilino em antevisão da sua morte. Atendendo às circunstâncias do tempo e dos regimes, podemos hoje dizer que fazer mais era difícil ou mesmo impossível, conforme sugere Aquilino. Resta-nos o respeito e a gratidão pelo seu contributo imortal no edifício da cidadania e da dignidade humana.

Aquilino e a sua relação com o Convento da Tabosa

“Na aldeia de Tabosa, vizinha do Carregal, os populares contaram à Lusa outra versão da história do nascimento de Aquilino. “As pessoas antigas diziam que Aquilino Ribeiro era filho de uma freira e de um padre [não da criada de servir Mariana do Rosário conforme consta na sua biografia e tendo nascido no convento]. Depois é que foi levado para o Carregal, porque naquela altura era um escândalo ser filho de um padre e de uma freira”, afirmou Hermínio Pereira […]. Outro conterrâneo, João Granja avança até a forma como Aquilino Ribeiro terá saído, em segredo, do convento” […]. `Para não dar mau falar à freira, nasceu e fizeram-no sair pela roda onde davam de comer aos pobres. Depois levaram-no pelas matas do Torgal, para que ninguém o visse, até ao Carregal, onde uma mulher o criou à mama`”. […] (cf. FERREIRA, Ana, ob. cit.; Agência Lusa / Expresso).

2-AMOR PELA NATUREZA E GENEROSIDADE ALTRUÍSTICA

”Em Aquilino Gomes Ribeiro, o sentimento estético e o sentimento ético não se confundem, mas comungam da mesma malga: o amor pela natureza. Diz Urbano Tavares Rodrigues em `O Génio de Aquilino` que “O Mestre é livre-pensador e anticlerical […] mas uma irreprimível atracção o faz abeirar-se dos franciscanos”.

Será que Aquilino era mesmo um anticlerical extremista?

Por mais consideração que mereçam os estudos, incluindo os referentes à figura de Urbano Tavares Rodrigues, não concordo que Aquilino fosse um anticlerical puro e duro. Aquilino apenas era anticlerical na medida em que criticava a hierarquia católica e os clérigos, nomeadamente os que viviam em hipocrisia, que pregavam uma coisa e faziam outra diferente.

Encontrei em Aquilino referências ao Espírito Santo e aos franciscanos; um episódio referente ao “Bom Abade de Pera e Peva em “Aldeia: Terra Gente e Bichos” e uma recorrência à terminologia da Igreja e dos clérigos, que nem sempre me parece formulada de forma crítica. Aquilino era anticlerical somente na medida em que pretendia chamar a atenção para os desvios da mensagem e comunicação cristã original. Em meu entender, Aquilino foi um dos precursores que levaram à renovação do espírito franciscano, tal como está a acontecer na atualidade com o Papa Francisco. Na tumba da Panteão Nacional e, quiçá, em dimensões exteriores, Aquilino encontra um Arauto de nível mundial na figura de Bergoglio.

3-O AMOR PELA LUTA CÍVICA em “Quando os Lobos Uivam”,

O que motivou Aquilino em “Quando os Lobos Uivam” (romance de 1958) foi o fim dos baldios na Serra dos Milhafres. Em finais dos anos 40, o Estado Novo resolve, sem auscultar as populações, apropriar-se das terras que, desde tempos imemoriais, eram explorados pelas comunidades beirãs, onde recolhiam lenha e apascentavam o gado. A população viu-se sem aquele recurso, complicando-se o “modus vivendi”.

Aquilino denunciou, como pode, a situação. Fê-lo por cidadania, altruísmo e solidariedade que são formas de amor para com os seus próximos conterrâneos.

Uma das principais personagens da obra – Manuel Louvadeus – ex-emigrante no Brasil chega à sua terra natal e vê as populações atingidas com as mudanças e expropriações. Louvadeus volta ao Brasil com a ideia de retornar em auxílio dos conterrâneos, para recuperarem o amor-próprio e desenvolverem a Terra. Nesta perspetiva Louvadeus abre-se com o pai, nestes termos:

– “Nesta aldeia miserável […] mais pobre, mais fanática, mais desoladora, hei-de criar uma escola de Artes e Ofícios. Uma escola para lavrantes de pedra. […]

– Hei-de oferecer lactário… hospital […]  cantina, onde se dê comer às crianças […], pôr telefone, luz eléctrica […]”.

4-O AMOR PELA SUSTENTABILIDADE E BIODIVERSIDADE DA TERRA: A LUTA CONTRA O LIBERALISMO E O REGIME VIGENTE

É notável encontrar na obra de Aquilino a insistência à temática ambiental, como em “Via Sinuosa (1918)” e no “Jardim das Tormentas” (1913), bem como, “O Romance da Raposa” (1923), “Arca de Noé”; “III Classe” (1935) e no “Livro da Marianinha” (1963).

Aquilino é um dos mais arrojados elementos de luta contra os impactos negativos da exploração da natureza. A ideia de um desenvolvimento sustentável está presente em várias obras de Aquilino, com destaque para “Volfrâmio” (1944) e “Quando os Lobos Uivam” (1958). (1) (cf. QUEIRÓS, doc. cit.)

Na obra infantil de 1924 – O Romance da Raposa”:

“[…] Aquilino traça um vasto e pormenorizado fresco da biodiversidade das florestas endógenas do nosso país […]. A sua preocupação com as espécies ameaçadas leva-o a aproveitar o ensejo para denunciar a ameaça de extinção que pesa sobre o lince, sessenta anos antes da campanha nacional para o salvar, no último reduto da Malcata ! […]”. Aquilino emita os sons dos grilos, rãs, rolas, mochos e refere-se às espécies e às formas geológicas, como afirma Urbano Tavares Rodrigues: “Não há talvez em toda a literatura portuguesa quem, como Aquilino Ribeiro, sinta e exprima o campo em todas as suas dimensões […].

Esta visão da Natureza é uma das formas de expressar o seu amor pela Existência.

Não obstante, Aquilino estar inserido nas lides políticas e maçónicas ele recorre constantemente aos termos da mentalidade católica-cristã. A terminologia frequente de: Deus, Cristo, Diabo, Demo, Barzebu, inferno, santos, campanário, sinos, devoção, rezas, divina graça, pragas e maldições, benta, benzedura, anjinho do senhor, rezas, corte celeste, escândalo, vergonha, rosário, infidelidades, cobras, tentações, contas a Deus, marranito (de marrano, judeu ou mouro que professa a fé cristã mais por conveniência do que por convicção), padre, missa, santarrão, alma cristã, etc., são produto da vasta cultura, não servindo apenas para a crítica, a denúncia mas também como meio de expressão, dando espaço à comunicação dos valores locais, não de um mundo regionalista, à parte, mas como parte integrante num mosaico de terras, povos e culturas; permitindo também a recuperação de termos ancestrais, de raiz clássica e bíblica, em perigo de desuso. A introdução de termos regionalistas de que é acusado, não corresponde à verdade total, pois esse vocabulário aparece em expressões existentes no Mundo Antigo, que entraram em desuso, devido à pouca valorização que se fazia das raízes culturais. Aquilino retoma essa vertente linguística ancestral, resgatando-a do esquecimento, elevando, assim, o nível cultural das populações e a riqueza da língua portuguesa.

As circunstâncias de miséria levam Aquilino a introduzir os episódios do “surripianço de comida” e dos “pilha-galinhas” (cf. RIBEIRO: 1974, pp. 41-42), dando vazão ao instinto da sobrevivência ou, se quisermos, ao vitalismo, de uma forma genérica. Há toda uma animação e vontade gregária/vitalista das gentes nos serões com namoricos e o gozo, como que a justificarem a falta de liberdades e as poucas notícias de outras terras e de outras culturas. (cf. RIBEIRO: 1974, pp. 46-49).

5-O AMOR SOLIDARIEDADE E O AMOR QUE PERDOA

Embora no estilo de romance, Aquilino em “Terras do Demo” faz uma análise das pessoas e da natureza envolvente. Deixa-nos um documento com valor etnográfico, incluindo os defeitos “O homem é o lobo do homem”.  Mas este mesmo homem não é só lobo, ele é também capaz de perdoar e de se desprender dos seus próprios bens. É o caso do “brasileiro” Alonso que ao chegar subitamente à sua aldeia lhe é revelada a infidelidade/traição da mulher. Aí ele desfaz-se de todas as suas prendas que traz do Brasil para a mulher e distribui tudo pelas pessoas da Terra, como num ágape (refeição / amor que se doa/distribui/comunga). Ao chegar junto da esposa com intenções de a matar, ela mesma se antecipa, expondo-se e clamando ao marido que a mate porque é o que merece. A esposa – Zefa do Alonso entrega a vida pelo amor e é ainda o Amor que a vai resgatar da morte por ter cedido ao vitalismo da carne. Perante o clamor da esposa “mata-me, mata-me”, o Alonso fica desarmado de fúria; não consegue fazer mal algum e, pelo contrário, protege a mulher cobrindo-lhe as partes sensuais com que ficara involuntariamente exposta.

Aquilino escreve sobre o Homem da Nave/Terras do Demo para comunicar a sua Terra, fazendo denúncia das condições miseráveis. É pelo amor solidariedade, pelo semelhante e pela natureza que escreve e luta. As personagens são cópia das pessoas reais. Através delas vemos a miséria que grassa pelas terras frias, difíceis de trabalhar, onde o pão é escasso. O discurso está mesclado com valores ético-religiosos. É como no Amor bíblico, traduzido em: “amarás o próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que este” (Marcos 12,30-31).

Fontes:

-FIDALGO, Anabela (Prof.) – Resumos de Aulas de Literatura da Professora. USMMA, 2014/2015

-RIBEIRO, Aquilino – Terras do Demo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1974

-RODRIGUES, Urbano Tavares – A Horas e Desoras- Lisboa: Edições Colibri, 1993

Em linha:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – A Primavera e a Criação in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2013/04/15/A-CRIA_C700C300_O-INCLUINDO-OS-EF_C900_MEROS-HOMEM_2F00_MULHER.aspx

—————- Aquilino Cívico Carismático e Castiço in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2013/06/05/AQUILINO-C_CD00_VICO-CARISM_C100_TICO-E-CASTI_C700_O-.aspx

—————- Aquilino Ribeiro – da Lapa à Sorbonne passando pelo M.U.D. e pela Sociedade Portuguesa de Escritores in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2013/06/24/AQUILINO-RIBEIRO-_9600_-DA-LAPA-_C000_-SORBONNE-PASSANDO-PELO-M.U.D.-E-PELA-SOCIEDADE-PORTUGUESA-DE-ESCRITORES-.aspx

—————- Aquilino Ribeiro e sua Obra  in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2013/05/29/AQUILINO-RIBEIRO-E-SUA-OBRA-.aspx

—————– Marcas na Beiraltíssima: Terras do Demo e de Magriço – Preparação de Visita in http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2013/10/19/Marcas-na-Beiralt_ED00_ssima_3A00_-Terras-do-Demo-e-de-Magri_E700_o-_2D00_-Prepara_E700E300_o-de-Visita.aspx

-FERREIRA, Ana Maria – Fernanda Almeida partilha berço com o escritor Aquilino Ribeiro in http://expresso.sapo.pt/aquilino-ribeiro-fernanda-almeida-partilha-berco-com-o-escritor-cfotos=f117118 / Agência Lusa, 15.9.2007

-LIMA, Conceição – As Reconfigurações do Amor em Aquilino Ribeiro: Incursão em Obras Representativas.- Dissertação de mestrado in https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/15188/1/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20mestrado_Concei%C3%A7%C3%A3oLima.pdf, s. l., s.d.

-QUEIRÓS, António dos Santos – Aquilino Ribeiro e a Filosofia da Natureza e do Ambiente in http://philoetichal.blogspot.pt/p/projecto-de-investigacao-filosofia-e.html?showComment=1365462770347, acedido em 15.4.2015

-RODRIGUES, Manuel – Filosofia e Ética – in (cf. http://philoetichal.blogspot.pt/p/projecto-de-investigacao-filosofia-e.html?showComment=1365462770347)

—————— “O militante nº 260” in http://www.pcp.pt/publica/militant/260/p18.html).

Tags.: Aquilino Ribeiro; Terras do Demo, luta cívica, Panteão Nacional, literatura, património imaterial, património edificado, património paisagístico, património natural

42. MINHAS MEMÓRIAS. 1983 – 1985. MUSEU DOS CTT RUA DE Dª ESTEFÂNIA NºS 173-175 LISBOA

15 Maio

Exposição do Património de Telecomunicações no Piso 3

Telegrafia elétrica e telefonia

Visa-se, com este artigo, divulgar os patrimónios e as formas de apresentação dos mesmos, especialmente os de telecomunicações, nos anos 80. Deve ter-se em conta que a formação dos conservadores/museólogos, arquitetos e designers e os meios e materiais aplicados às exposições desses anos não eram os mesmos que os atuais. De á para cá, há um intermédio de mais de 30 anos de investigações, de desenvolvimento da documentação, técnicas e materiais. Logo, a descrição que pode, eventualmente, parecer de crítica negativa, deve ser entendida com a intenção positiva de divulgar o que existia e foi feito com as condições da época.

Telegrafia elétrica bréguet, a primeira a ser introduzida em Portugal no ano de 1855 quando o jovem rei D. Pedro V iniciava o seu reinado. Esta secção abria a exposição do 3º piso. Seguia-se a: Telegrafia em código morse nomeadamente com peças dos portugueses Cristiano Augusto Bramão e Maximiliano Augusto Herrmann. Cristiano fora inovador na telegrafia e na telefonia, ajudando a elevar a Direcção Geral dos Telegrafos portugueses à categoria dos galardoados na Exposição Universal de Paris, de 1878, tal como descrito pelos responsáveis de uma das maiores exposições de sempre. A referência a Portugal, nomeadamente no que concerne às telecomunicações carateriza-se na seguinte comunicação:

“Exposition Universelle de 1878. Distribuition des Recompenses aux Exposants et Procédes de la Télégraphie: Grands prix. Diplomes d`  honneur equivalent a une grand medaille. Direction Générale des Télégraphes Portugal” (1).

Cristiano Augusto recebera da Direcção dos Telegrafos a quantia de 700.000 reis para o registo da patente do seu telégrafo, em vários países, antes de ter sido apresentado em Paris na Exposição Universal. Em 1872 o Director dos Telegrafos portugueses Valentim do Rego referiu-se a Cristiano  nos seguintes termos: “O empregado mais apto que tenho para dirigir o ensino […] é o telegrafista de 1ª classe Cristiano Bramão […]. Em 20 de Julho de 1872 foi-me presente uma memória pelo telegrafista Bramão, sendo o novo aparelho telegráfico de sua invenção, com o qual esperava […] produzir 33% de serviço a mais com o mesmo trabalho […]. Estudando a questão […] mandei construir um aparelho conforme as indicações do inventor […]. Este aparelho começou a ensaiar-se em Dezembro de 1872 entre Lisboa e Carcavelos e em consequência dos bons resultados obtidos achavam-se em Agosto de 1874, 10 destes aparelhos a funcionar regularmente” (2).

Também em relação ao patronímico Herrmann, apenas ligeiramente indicado em legendas: telefónicas e telegráficas, o visitante não se apercebia do valor deste autor para as telecomunicações. Alguns visitantes pensavam que se tratava de um autor estrangeiro, no tempo em que o quase homónimo Herman José ainda não estava consagrado na galeria dos artistas. O patronímico Herrmann (ainda com dois rr e dois nn) parecia indicar-nos que se tratava de alguém distante. Não era o caso. Maximiliano Augusto Herrmann, era natural de Lisboa, industrial, inventor e inovador. Morou na Calçada do Lavra, nº 6 – Lisboa, onde possuiu uma das maiores oficinas portuguesas de construção e assistência a diversos equipamentos. Herrmannn também foi notável nos caminhos-de-ferro; deu início à introdução da iluminação elétrica e manufaturou diverso equipamento mecânico e eletromecânico. A título de exemplo: Foi o próprio Maximiliano Herrmann quem construiu o telégrafo e telefone inovadores de Cristiano Augusto Bramão; inventou e construiu o seu próprio modelo (Herrmann) batizado de “Telefone Privilegiado”.

Telegrafia Hughes, também conhecida como telegrafia, modelo piano por apresentar um teclado de caracteres alfa numéricos servindo de transmissor. Este telégrafo fora objeto de inovação portuguesa. Contudo na exposição não se notava esse importante contributo português;

Telegrafia Baudot (3) de transmissão de uma até quatro mensagens pela mesma linha e ao mesmo tempo. Também conhecido por sistema multiplex – revelava a inovação de Jean Maurice Émile Baudot no último quartel do século XIX. Este engenheiro dos correios e telégrafos franceses contou, já no século XX, com uma aplicação portuguesa de suma importância. Tratou-se de um regulador de velocidade e estabilização que permitiu viabilizar e divulgar a telegrafia multiplex em vários países. As frequentes alterações da força motriz da corrente eléctrica criavam quebras e picos prejudiciais para a transmissão. Impunha-se uma inovação. Inicialmente projectada por António dos Santos, ex-aluno da Casa Pia de Lisboa na primeira década do século XX. Esta inovação foi posteriormente desenvolvida por Francisco Mendonça e Cassiano de Oliveira, empregados dos Correios Telégrafos e Telefones de Portugal.

Novas telegrafias com teleimpressores, vulgo telex: A segunda metade do século XX assiste à introdução do telex em estações públicas dos CTT nas empresas e agências subscritoras do serviço. A nova telegrafia permite a transmissão e a recepção de telegramas sem necessidade de aprendizagem de códigos. Os teleimpressores, também conhecidos por telex eram aparelhos modernos, parecidos com máquinas de escrever eléctricas. Renovaram as agências de notícias, viagens, serviços meteorológicos e empresas. Contudo faltava alguma informação complementar: sobre as redes, tráfego e contexto que chamasse a atenção para este novo tipo de telegrafia iniciada em Portugal nos anos 40; só “destronada” pelo corfax/telecópia na década de 90.

Aparelhos terminais telefónicos: Na sala de telefones expunha-se um acervo significativo, constituido por modelos precursores (4), alguns da autoria de inventores e inovadores portugueses. Telefones e centrais de comutação manuais através da intervenção de telefonistas. A exposição de  telefones e comutadores apresentados sem imagens de telefonistas ou manequins que indicassem o ambiente de trabalho nas Estações e Postos tornava-se pobre de informação e emoção.

Sala de Telefones automáticos: Entre todas as salas do 3º piso esta era a que mais despertava a atenção. Podia mesmo dispensar documentação. O conteúdo era ainda recente. Expunham-se telefones com marcadores rotativos, muito comuns na época (anos oitenta). A central de comutação com busca e seleção dos números através do processo “sobe e roda”, segundo a gíria dos técnicos CTT e TLP era uma peça chave.

Despertava-se a atenção dos visitantes ao poderem ligar de um telefone para outro, ao verem e ouvirem in loco o processo automático de seleção de linhas. Tratava-se duma sala de conhecimento prático, de contacto vivo e de animação. Poderia, contudo, ali ser apresentada alguma informação sobre tráfego telefónico; imagens de manutenção nas Estações e diagramas relativos a redes de comunicações. Porém, Este espaço era apreciado e ali se acumulavam pessoas, sobretudo quando havia visitas de grupo.

Equipamentos de comunicação radioelétrica

A sala era pequena para integrar peças e informação que pudessem dar uma ideia do que eram e como funcionavam os serviços, mormente em relação com as Ilhas.  Apresentavam-se diversos equipamentos, o que era natural porque as comunicações radioelétricas insulares foram muito utilizadas. Na década de 70 (finais) pensou-se na descentralização do Museu dos CTT, tendo sido enviados espécimes para integrar um polo de museu em Ponta Delgada, o que parece ainda não se ter concretizado até ao presente.

Quanto à representação telefónica e telegráfica por via radioelétrica no território continental, seria de bom-tom apresentar algo sobre os serviços de gestão e fiscalização do espectro de rádio. Sendo a Direção dos Serviços Radioelétricos como um virtual agente sinaleiro do espaço no continente e ilhas (5), convinha que o visitante saísse da exposição com uma ideia sobre estas transmissões,  estudo das condições de propagação, licenciamento, regulação e redes. O visitante gostaria de saber qual o papel das organizações e utilizadores das frequências radioeléctricas, sendo um bem escasso a gerir.

Os anos 80 coincidiram com as fortes cheias do Ribatejo e com o devastador terramoto dos Açores, onde as comunicações via rádio, incluindo: redes privativas, radioamadores, utilizadores da banda do cidadão e Direção dos Serviços Radioelétricos tiveram um papel relevante, prestando um verdadeiro serviço público e de cidadania. A secção radioeléctrica do Museu não abordava esse papel social, humanitário e de gestão destas comunicações: públicas, privativas e particulares. Havia nesta sala escassez de informação sobre o serviço público e organização das frequências no espaço português: entre Portugal continental, o espaço marítimo, a Madeira e os Açores.

Outros comentários à exposição: Não obstante a informação que se poderia obter na sala de telefones, provocava-se alguma sensação de “enfartamento”, dada a quantidade de objetos mas pobre em cenário e elementos interpretativos. Os vários tipos de telefones não estavam apresentados por um fio condutor facilmente percetível ao visitante comum. Contudo, cineastas, artistas de teatro, de televisão, escritores e todos os que procurassem interesse funcional e estético poderiam ter ali matéria de inspiração. Releve-se que a decoração interior do Museu atenuava a componente técnica, embora alguns museólogos tivessem a impressão contrária, isto é, para estes especialistas a decoração do interior do edifício dispersava as atenções em relação à exposição.

Um dos primeiros exemplos de legendas: “Telefone Bramão, 1879 / Construtor Herrmann, Lisboa / Modelo com chamada por manipulador Morse” não era muito atrativo (v. infra outras legendas). Os nomes de  Bramão e Herrmann em algumas legendas, como a acima indicada, não despertavam muita motivação e informação. Quanto a Cristiano Augusto Bramão conviria que o visitante ficasse com uma ideia do contributo deste técnico e autor para as comunicações. Num relatório de 1865, o Conselheiro José Vitorino Damásio, Director-Geral dos Telégrafos escreveu o seguinte em relação ao telégrafo de Cristiano Bramão e construído por Maximiliano Herrmann: “Um aparelho deste sistema [telegráfico] tem funcionado na Estação Central de Paris, e ali mereceu a aprovação das pessoas entendidas […]” (6). Porém, esta citação, ou outras referências equivalentes não faziam parte da exposição; apenas contávamos com legendas consideradas pouco atrativas, como as abaixo indicadas.

“Telefone de parede de bateria central / tipo ATM 332”;

Telefone de parede  / com microtelefone fixo / sistema de bateria central / usado pela APT”;

Telefone de parede / com microtelefone e chamada por corrente contínua”;

Telefone de mesa de bateria central / cor de marfim / tipo: 7A”;

Telefone de mesa, / com microtelefone e chamada por magneto”.

Nota de contexto museológico: A ideia que o cidadão comum fazia dos museus como instituições do passado (não só referente ao Museu dos CTT) resultara das crises por que passaram, depois da II Guerra Mundial, em parte devido à concorrência de outros meios de informação (rádio e televisão); falta de condições económicas para renovar cenários de exposições; saída de públicos ou potenciais públicos para a emigração e para o serviço militar obrigatório no continente e ultramar.

Chegado o 25 de Abril de 1974 as atenções voltaram-se para outras sensibilidades e olhares, tais como o usufruto de liberdades, constituição de associações e reorganização económica.

Os museus continuaram à espera de novas formas de apresentação dos patrimónios com novas museografias. Nos anos 80 a APOM – Associação Portuguesa de Museologia vinha-se esforçando com a presença e apoio a eventos e formação; mas foi o MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia quem primeiro lançou debates inovadores (“a pedrada no charco”, no dizer de Mário Moutinho) sobre os processos museológicos e museográficos com a atenção mais voltada para as pessoas, as localidades, os novos patrimónios, naturais e imateriais, do que para as peças tradicionais de arte, arqueologia e etnografia. Com a viragem do século as duas Associações começaram a convergir em termos de abordagem conceptual.

Contudo o  Museu dos CTT, e temporariamente dos TLP, promoveu nesses anos algumas formas mediadoras dignas de destaque na divulgação do património e programas de comunicações, sobretudo no seio das comunidades escolares. Em próximos artigos faremos referência ao contributo do Museu dos CTT e TLP.

Notas:

(1)FERREIRA, Godofredo. Anotações in BARROS, Guilhermino Augusto de – Memória Histórica Acerca da Telegrafia Eléctrica em Portugal. Separata do Guia Oficial dos CTT, 2ª ed. ampliada com notas, gravuras e retratos coligidos por Godofredo Ferreira, Lisboa, 1943, p XCVIII.

(2)Id., pp. LXXV-LXXXIV

(3)BAUDOT, Jean-Maurice-Émile (1845 – 1903), francês, Inventor da telegrafia simultânea (até 4 mensagens).

(4)Precursores, isto é, iniciais, que estão entre os primeiros modelos concebidos e ainda se consideram na fase experimental.

(5)Atividade hoje a cargo da ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações.

(6)FERREIRA, ob. cit. pp. LXXV-LXXXIV

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Ensaio de Investigação e Organização da Telegrafia do Museu dos CTT. Lisboa: Edição pessoal realizada no âmbito de Seminário de Biblioteconomia e Arquivologia. Lisboa: UAL “Luís de Camões”, 1987/1988, 85 pp.

—————-  O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações

-APOM – Panorama Museológico Português: Carências e Potencialidades. Actas do Colóquio APOM / 76. Porto, 1 a 5 de dez, 1976

-MOUTINHO, Mário – “Museus e Sociedade“. In Textos de Museologia. Jornadas sobre a Função Social do Museu. Cadernos do MINOM Nº 1, 1991

-NASCIMENTO, Rosana – A Historicidade do Objecto Museológico, Cadernos de Sociomuseologia Centro de Estudos de Sociomuseologia, 3-1994, Lisboa: ULHT

-SANTOS, Rogério – Do telefone à central digital: contributos para a história das telecomunicações em Portugal. Lisboa: TLP, 1989

-TLP – 1882-1992, 110 anos a telecomunicar. Lisboa: TLP, 1992

-VIANA, Mário Gonçalves – Arte de organizar colecções exposições e museus. Porto: Ed. Domingos Barreira, 1972

Em linha, acedidas em 5.5.2015:

ANCIÃES, Alfredo Ramos – Minhas memórias  – Exposição 2º Piso Museu dos CTT in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/37-minhas-mem-rias-exposi-o-2-piso-museu-dos-ctt

—————— Minhas memórias do Museu dos CTT Rés-do-Chão da Rua de D. Estefânia entre Abril de 1983 e Maio de 1985 in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/34-minhas-mem-rias

—————— Museologia entre o Estado Novo e a Democracia: O caso do ex-Museu dos CTT e TLP in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/21-museologia-entre-o-estado-novo-e-a-democracia-o-caso-do-ex

—————— Notas da TSF / Rádio Pública no antes de 25 de Abril 1974 in http://cumpriraterra.blogspot.pt/2014/05/09-notas-da-tsf-radio-publica-no-antes.html

—————–  Proto-Museu Postal e Biblioteca in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/25-proto-museu-postal-e-biblioteca

——————– Um Bispo Museólogo Arquivista Bibliotecário Investigador Divulgador in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/29-um-bispo-muse-logo-arquivista-bibliotec-rio-investigador.

-BAUDOT, Jean-Émile-Maurice in  https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Baudot

-SILVA, Luis Marques da – Rua de Dª Estefânia, Antigo Museu dos CTT in http://luismarquesdasilvaarquitectura.blogspot.pt/2009/07/rua-de-dona-estefania-antigo-museu-dos.htm

lisboamarcas

Exposição do Património de Telecomunicações no Piso 3

Telegrafia elétrica e telefonia

Visa-se, com este artigo, divulgar os patrimónios e as formas de apresentação dos mesmos, especialmente os de telecomunicações, nos anos 80. Deve ter-se em conta que a formação dos conservadores/museólogos, arquitetos e designers e os meios e materiais aplicados às exposições desses anos não eram os mesmos que os atuais. De á para cá, há um intermédio de mais de 30 anos de investigações, de desenvolvimento da documentação, técnicas e materiais. Logo, a descrição que pode, eventualmente, parecer de crítica negativa, deve ser entendida com a intenção positiva de divulgar o que existia e foi feito com as condições da época.

Telegrafia elétrica bréguet, a primeira a ser introduzida em Portugal no ano de 1855 quando o jovem rei D. Pedro V iniciava o seu reinado. Esta secção abria a exposição do 3º piso. Seguia-se a: Telegrafia em código…

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42. MINHAS MEMÓRIAS. 1983 – 1985. MUSEU DOS CTT RUA DE Dª ESTEFÂNIA NºS 173-175 LISBOA

14 Maio

Exposição do Património de Telecomunicações no Piso 3

Telegrafia elétrica e telefonia

Visa-se, com este artigo, divulgar os patrimónios e as formas de apresentação dos mesmos, especialmente os de telecomunicações, nos anos 80. Deve ter-se em conta que a formação dos conservadores/museólogos, arquitetos e designers e os meios e materiais aplicados às exposições desses anos não eram os mesmos que os atuais. De á para cá, há um intermédio de mais de 30 anos de investigações, de desenvolvimento da documentação, técnicas e materiais. Logo, a descrição que pode, eventualmente, parecer de crítica negativa, deve ser entendida com a intenção positiva de divulgar o que existia e foi feito com as condições da época.

Telegrafia elétrica bréguet, a primeira a ser introduzida em Portugal no ano de 1855 quando o jovem rei D. Pedro V iniciava o seu reinado. Esta secção abria a exposição do 3º piso. Seguia-se a: Telegrafia em código morse nomeadamente com peças dos portugueses Cristiano Augusto Bramão e Maximiliano Augusto Herrmann. Cristiano fora inovador na telegrafia e na telefonia, ajudando a elevar a Direcção Geral dos Telegrafos portugueses à categoria dos galardoados na Exposição Universal de Paris, de 1878, tal como descrito pelos responsáveis de uma das maiores exposições de sempre. A referência a Portugal, nomeadamente no que concerne às telecomunicações carateriza-se na seguinte comunicação:

“Exposition Universelle de 1878. Distribuition des Recompenses aux Exposants et Procédes de la Télégraphie: Grands prix. Diplomes d`  honneur equivalent a une grand medaille. Direction Générale des Télégraphes Portugal” (1).

Cristiano Augusto recebera da Direcção dos Telegrafos a quantia de 700.000 reis para o registo da patente do seu telégrafo, em vários países, antes de ter sido apresentado em Paris na Exposição Universal. Em 1872 o Director dos Telegrafos portugueses Valentim do Rego referiu-se a Cristiano  nos seguintes termos: “O empregado mais apto que tenho para dirigir o ensino […] é o telegrafista de 1ª classe Cristiano Bramão […]. Em 20 de Julho de 1872 foi-me presente uma memória pelo telegrafista Bramão, sendo o novo aparelho telegráfico de sua invenção, com o qual esperava […] produzir 33% de serviço a mais com o mesmo trabalho […]. Estudando a questão […] mandei construir um aparelho conforme as indicações do inventor […]. Este aparelho começou a ensaiar-se em Dezembro de 1872 entre Lisboa e Carcavelos e em consequência dos bons resultados obtidos achavam-se em Agosto de 1874, 10 destes aparelhos a funcionar regularmente” (2).

Também em relação ao patronímico Herrmann, apenas ligeiramente indicado em legendas: telefónicas e telegráficas, o visitante não se apercebia do valor deste autor para as telecomunicações. Alguns visitantes pensavam que se tratava de um autor estrangeiro, no tempo em que o quase homónimo Herman José ainda não estava consagrado na galeria dos artistas. O patronímico Herrmann (ainda com dois rr e dois nn) parecia indicar-nos que se tratava de alguém distante. Não era o caso. Maximiliano Augusto Herrmann, era natural de Lisboa, industrial, inventor e inovador. Morou na Calçada do Lavra, nº 6 – Lisboa, onde possuiu uma das maiores oficinas portuguesas de construção e assistência a diversos equipamentos. Herrmannn também foi notável nos caminhos-de-ferro; deu início à introdução da iluminação elétrica e manufaturou diverso equipamento mecânico e eletromecânico. A título de exemplo: Foi o próprio Maximiliano Herrmann quem construiu o telégrafo e telefone inovadores de Cristiano Augusto Bramão; inventou e construiu o seu próprio modelo (Herrmann) batizado de “Telefone Privilegiado”.

Telegrafia Hughes, também conhecida como telegrafia, modelo piano por apresentar um teclado de caracteres alfa numéricos servindo de transmissor. Este telégrafo fora objeto de inovação portuguesa. Contudo na exposição não se notava esse importante contributo português;

Telegrafia Baudot (3) de transmissão de uma até quatro mensagens pela mesma linha e ao mesmo tempo. Também conhecido por sistema multiplex – revelava a inovação de Jean Maurice Émile Baudot no último quartel do século XIX. Este engenheiro dos correios e telégrafos franceses contou, já no século XX, com uma aplicação portuguesa de suma importância. Tratou-se de um regulador de velocidade e estabilização que permitiu viabilizar e divulgar a telegrafia multiplex em vários países. As frequentes alterações da força motriz da corrente eléctrica criavam quebras e picos prejudiciais para a transmissão. Impunha-se uma inovação. Inicialmente projectada por António dos Santos, ex-aluno da Casa Pia de Lisboa na primeira década do século XX. Esta inovação foi posteriormente desenvolvida por Francisco Mendonça e Cassiano de Oliveira, empregados dos Correios Telégrafos e Telefones de Portugal.

Novas telegrafias com teleimpressores, vulgo telex: A segunda metade do século XX assiste à introdução do telex em estações públicas dos CTT nas empresas e agências subscritoras do serviço. A nova telegrafia permite a transmissão e a recepção de telegramas sem necessidade de aprendizagem de códigos. Os teleimpressores, também conhecidos por telex eram aparelhos modernos, parecidos com máquinas de escrever eléctricas. Renovaram as agências de notícias, viagens, serviços metereológicos e empresas. Contudo faltava alguma informação complementar: sobre as redes, tráfego e contexto que chamasse a atenção para este novo tipo de telegrafia iniciada em Portugal nos anos 40; só “destronada” pelo corfax/telecópia na década de 90.

Aparelhos terminais telefónicos: Na sala de telefones expunha-se um acervo significativo, constituido por modelos precursores (4), alguns da autoria de inventores e inovadores portugueses. Telefones e centrais de comutação manuais através da intervenção de telefonistas. A exposição de  telefones e comutadores apresentados sem imagens de telefonistas ou manequins que indicassem o ambiente de trabalho nas Estações e Postos tornava-se pobre de informação e emoção.

Sala de Telefones automáticos: Entre todas as salas do 3º piso esta era a que mais despertava a atenção. Podia mesmo dispensar documentação. O conteúdo era ainda recente. Expunham-se telefones com marcadores rotativos, muito comuns na época (anos oitenta). A central de comutação com busca e seleção dos números através do processo “sobe e roda”, segundo a gíria dos técnicos CTT e TLP era uma peça chave.

Despertava-se a atenção dos visitantes ao poderem ligar de um telefone para outro, ao verem e ouvirem in loco o processo automático de seleção de linhas. Tratava-se duma sala de conhecimento prático, de contacto vivo e de animação. Poderia, contudo, ali ser apresentada alguma informação sobre tráfego telefónico; imagens de manutenção nas Estações e diagramas relativos a redes de comunicações. Porém, Este espaço era apreciado e ali se acumulavam pessoas, sobretudo quando havia visitas de grupo.

Equipamentos de comunicação radioelétrica

A sala era pequena para integrar peças e informação que pudessem dar uma ideia do que eram e como funcionavam os serviços, mormente em relação com as Ilhas.  Apresentavam-se diversos equipamentos, o que era natural porque as comunicações radioelétricas insulares foram muito utilizadas. Na década de 70 (finais) pensou-se na descentralização do Museu dos CTT, tendo sido enviados espécimes para integrar um polo de museu em Ponta Delgada, o que parece ainda não se ter concretizado até ao presente.

Quanto à representação telefónica e telegráfica por via radioelétrica no território continental, seria de bom-tom apresentar algo sobre os serviços de gestão e fiscalização do espectro de rádio. Sendo a Direção dos Serviços Radioelétricos como um virtual agente sinaleiro do espaço no continente e ilhas (5), convinha que o visitante saísse da exposição com uma ideia sobre estas transmissões,  estudo das condições de propagação, licenciamento, regulação e redes. O visitante gostaria de saber qual o papel das organizações e utilizadores das frequências radioeléctricas, sendo um bem escasso a gerir.

Os anos 80 coincidiram com as fortes cheias do Ribatejo e com o devastador terramoto dos Açores, onde as comunicações via rádio, incluindo: redes privativas, radioamadores, utilizadores da banda do cidadão e Direção dos Serviços Radioelétricos tiveram um papel relevante, prestando um verdadeiro serviço público e de cidadania. A secção radioeléctrica do Museu não abordava esse papel social, humanitário e de gestão destas comunicações: públicas, privativas e particulares. Havia nesta sala escassez de informação sobre o serviço público e organização das frequências no espaço português: entre Portugal continental, o espaço marítimo, a Madeira e os Açores.

Outros comentários à exposição: Não obstante a informação que se poderia obter na sala de telefones, provocava-se alguma sensação de “enfartamento”, dada a quantidade de objetos mas pobre em cenário e elementos interpretativos. Os vários tipos de telefones não estavam apresentados por um fio condutor facilmente percetível ao visitante comum. Contudo, cineastas, artistas de teatro, de televisão, escritores e todos os que procurassem interesse funcional e estético poderiam ter ali matéria de inspiração. Releve-se que a decoração interior do Museu atenuava a componente técnica, embora alguns museólogos tivessem a impressão contrária, isto é, para estes especialistas a decoração do interior do edifício dispersava as atenções em relação à exposição.

Um dos primeiros exemplos de legendas: “Telefone Bramão, 1879 / Construtor Herrmann, Lisboa / Modelo com chamada por manipulador Morse” não era muito atrativo (v. infra outras legendas). Os nomes de  Bramão e Herrmann em algumas legendas, como a acima indicada, não despertavam muita motivação e informação. Quanto a Cristiano Augusto Bramão conviria que o visitante ficasse com uma ideia do contributo deste técnico e autor para as comunicações. Num relatório de 1865, o Conselheiro José Vitorino Damásio, Director-Geral dos Telégrafos escreveu o seguinte em relação ao telégrafo de Cristiano Bramão e construído por Maximiliano Herrmann: “Um aparelho deste sistema [telegráfico] tem funcionado na Estação Central de Paris, e ali mereceu a aprovação das pessoas entendidas […]” (6). Porém, esta citação, ou outras referências equivalentes não faziam parte da exposição; apenas contávamos com legendas consideradas pouco atrativas, como as abaixo indicadas.

“Telefone de parede de bateria central / tipo ATM 332”;

Telefone de parede  / com microtelefone fixo / sistema de bateria central / usado pela APT”;

Telefone de parede / com microtelefone e chamada por corrente contínua”;

Telefone de mesa de bateria central / cor de marfim / tipo: 7A”;

Telefone de mesa, / com microtelefone e chamada por magneto”.

Nota de contexto museológico: A ideia que o cidadão comum fazia dos museus como instituições do passado (não só referente ao Museu dos CTT) resultara das crises por que passaram, depois da II Guerra Mundial, em parte devido à concorrência de outros meios de informação (rádio e televisão); falta de condições económicas para renovar cenários de exposições; saída de públicos ou potenciais públicos para a emigração e para o serviço militar obrigatório no continente e ultramar.

Chegado o 25 de Abril de 1974 as atenções voltaram-se para outras sensibilidades e olhares, tais como o usufruto de liberdades, constituição de associações e reorganização económica.

Os museus continuaram à espera de novas formas de apresentação dos patrimónios com novas museografias. Nos anos 80 a APOM – Associação Portuguesa de Museologia vinha-se esforçando com a presença e apoio a eventos e formação; mas foi o MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia quem primeiro lançou debates inovadores (“a pedrada no charco”, no dizer de Mário Moutinho) sobre os processos museológicos e museográficos com a atenção mais voltada para as pessoas, as localidades, os novos patrimónios, naturais e imateriais, do que para as peças tradicionais de arte, arqueologia e etnografia. Com a viragem do século as duas Associações começaram a convergir em termos de abordagem conceptual.

Contudo o  Museu dos CTT, e temporariamente dos TLP, promoveu nesses anos algumas formas mediadoras dignas de destaque na divulgação do património e programas de comunicações, sobretudo no seio das comunidades escolares. Em próximos artigos faremos referência ao contributo do Museu dos CTT e TLP.

Notas:

(1)FERREIRA, Godofredo. Anotações in BARROS, Guilhermino Augusto de – Memória Histórica Acerca da Telegrafia Eléctrica em Portugal. Separata do Guia Oficial dos CTT, 2ª ed. ampliada com notas, gravuras e retratos coligidos por Godofredo Ferreira, Lisboa, 1943, p XCVIII.

(2)Id., pp. LXXV-LXXXIV

(3)BAUDOT, Jean-Maurice-Émile (1845 – 1903), francês, Inventor da telegrafia simultânea (até 4 mensagens).

(4)Precursores, isto é, iniciais, que estão entre os primeiros modelos concebidos e ainda se consideram na fase experimental.

(5)Atividade hoje a cargo da ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações.

(6)FERREIRA, ob. cit. pp. LXXV-LXXXIV

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Ensaio de Investigação e Organização da Telegrafia do Museu dos CTT. Lisboa: Edição pessoal realizada no âmbito de Seminário de Biblioteconomia e Arquivologia. Lisboa: UAL “Luís de Camões”, 1987/1988, 85 pp.

—————-  O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações

-APOM – Panorama Museológico Português: Carências e Potencialidades. Actas do Colóquio APOM / 76. Porto, 1 a 5 de dez, 1976

-MOUTINHO, Mário – “Museus e Sociedade“. In Textos de Museologia. Jornadas sobre a Função Social do Museu. Cadernos do MINOM Nº 1, 1991

-NASCIMENTO, Rosana – A Historicidade do Objecto Museológico, Cadernos de Sociomuseologia Centro de Estudos de Sociomuseologia, 3-1994, Lisboa: ULHT

-SANTOS, Rogério – Do telefone à central digital: contributos para a história das telecomunicações em Portugal. Lisboa: TLP, 1989

-TLP – 1882-1992, 110 anos a telecomunicar. Lisboa: TLP, 1992

-VIANA, Mário Gonçalves – Arte de organizar colecções exposições e museus. Porto: Ed. Domingos Barreira, 1972

Em linha, acedidas em 5.5.2015:

ANCIÃES, Alfredo Ramos – Minhas memórias  – Exposição 2º Piso Museu dos CTT in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/37-minhas-mem-rias-exposi-o-2-piso-museu-dos-ctt

—————— Minhas memórias do Museu dos CTT Rés-do-Chão da Rua de D. Estefânia entre Abril de 1983 e Maio de 1985 in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/34-minhas-mem-rias

—————— Museologia entre o Estado Novo e a Democracia: O caso do ex-Museu dos CTT e TLP in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/21-museologia-entre-o-estado-novo-e-a-democracia-o-caso-do-ex

—————— Notas da TSF / Rádio Pública no antes de 25 de Abril 1974 in http://cumpriraterra.blogspot.pt/2014/05/09-notas-da-tsf-radio-publica-no-antes.html

-BAUDOT, Jean-Émile-Maurice in  https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Baudot

-SILVA, Luis Marques da – Rua de Dª Estefânia, Antigo Museu dos CTT in http://luismarquesdasilvaarquitectura.blogspot.pt/2009/07/rua-de-dona-estefania-antigo-museu-dos.html

—————–  Proto-Museu Postal e Biblioteca in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/25-proto-museu-postal-e-biblioteca

——————– Um Bispo Museólogo Arquivista Bibliotecário Investigador Divulgador in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/29-um-bispo-muse-logo-arquivista-bibliotec-rio-investigador.

Notas:

(1)(35ex45) FERREIRA, Godofredo. Anotações in BARROS, Guilhermino Augusto de – Memória Histórica Acerca da Telegrafia Eléctrica em Portugal. Separata do Guia Oficial dos CTT, 2ª ed. ampliada com notas, gravuras e retratos coligidos por Godofredo Ferreira, Lisboa, 1943, p XCVIII.

(2)(36ex46) Id., pp. LXXV-LXXXIV

(3)(32)  BAUDOT, Jean-Maurice-Émile (1845 – 1903), francês, Inventor da telegrafia simultânea (até 4 mensagens).

(4)(33) Precursores, isto é, iniciais, que estão entre os primeiros modelos concebidos e ainda se consideram na fase experimental.

(5)(38) Atividade hoje a cargo da ANACOM – Autoridade Nacional de Comunicações.

(6)(37) FERREIRA, ob. cit. pp. LXXV-LXXXIV

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Ensaio de Investigação e Organização da Telegrafia do Museu dos CTT. Lisboa: Edição pessoal realizada no âmbito de Seminário de Biblioteconomia e Arquivologia. Lisboa: UAL “Luís de Camões”, 1987/1988, 85 pp.

—————-  O Museu dos CTT. Lisboa: Arquivo UNL, 1988/1989. Disponível também em Arquivo do Grupo dos Amigos do Museu das Comunicações

-APOM – Panorama Museológico Português: Carências e Potencialidades. Actas do Colóquio APOM / 76. Porto, 1 a 5 de dez, 1976

-MOUTINHO, Mário – “Museus e Sociedade“. In Textos de Museologia. Jornadas sobre a Função Social do Museu. Cadernos do MINOM Nº 1, 1991

-NASCIMENTO, Rosana – A Historicidade do Objecto Museológico, Cadernos de Sociomuseologia Centro de Estudos de Sociomuseologia, 3-1994, Lisboa: ULHT

-SANTOS, Rogério – Do telefone à central digital: contributos para a história das telecomunicações em Portugal. Lisboa: TLP, 1989

-TLP – 1882-1992, 110 anos a telecomunicar. Lisboa: TLP, 1992

-VIANA, Mário Gonçalves – Arte de organizar colecções exposições e museus. Porto: Ed. Domingos Barreira, 1972

Em linha, acedidas em 5.5.2015:

ANCIÃES, Alfredo Ramos – Minhas memórias  – Exposição 2º Piso Museu dos CTT in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/37-minhas-mem-rias-exposi-o-2-piso-museu-dos-ctt

—————— Minhas memórias do Museu dos CTT Rés-do-Chão da Rua de D. Estefânia entre Abril de 1983 e Maio de 1985 in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/34-minhas-mem-rias

—————— Museologia entre o Estado Novo e a Democracia: O caso do ex-Museu dos CTT e TLP in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/21-museologia-entre-o-estado-novo-e-a-democracia-o-caso-do-ex

—————— Notas da TSF / Rádio Pública no antes de 25 de Abril 1974 in http://cumpriraterra.blogspot.pt/2014/05/09-notas-da-tsf-radio-publica-no-antes.html

-BAUDOT, Jean-Émile-Maurice in  https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_Baudot

-SILVA, Luis Marques da – Rua de Dª Estefânia, Antigo Museu dos CTT in http://luismarquesdasilvaarquitectura.blogspot.pt/2009/07/rua-de-dona-estefania-antigo-museu-dos.html

—————–  Proto-Museu Postal e Biblioteca in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/25-proto-museu-postal-e-biblioteca

——————– Um Bispo Museólogo Arquivista Bibliotecário Investigador Divulgador in http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/29-um-bispo-muse-logo-arquivista-bibliotec-rio-investigador.