Arquivo | Janeiro, 2016

61. UM PERCURSO D`ÁGUAS: PATRIMÓNIOS IMATERIAIS E TANGÍVEIS – DA ROMANIDADE À ATUALIDADE

4 Jan

lisboamarcas

          Nota prévia: poderá aceder a todas as imagens no post com o seguinte endereço: –»» http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/percurso-d-guas-patrim-nios-imateriais-e-tang-veis-da-romanidade

Da Igreja de São João do Lumiar ao coração de Lisboa, passando por Odivelas, Caneças, Belas e Carenque procurando uma interpretação dos patrimónios imateriais e tangíveis.

MOMENTO I A Força da água na vida espiritual e corporal

A Igreja de São João do Lumiar fica situada no Largo São João Baptista, 1600-760 Lumiar – LISBOA. Esta Igreja tem dois oragos: São João Batista e Santa Brízida ou Brígida. Ambos os oragos estão relacionados com a água, daí o iniciar este percurso na Igreja/Largo de São João Batista, ao Lumiar.

Uma das descrições de S. João Batista, primo de Jesus Cristo. É «Aquele que batiza em água», sendo que S. João Batista batizou o próprio Cristo nas águas do Rio Jordão.

Algumas citações sobre João Batista:

No Evangelho de São Mateus: 3,11 Eu…

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61. UM PERCURSO D`ÁGUAS: PATRIMÓNIOS IMATERIAIS E TANGÍVEIS – DA ROMANIDADE À ATUALIDADE

3 Jan

          Nota prévia: poderá aceder a todas as imagens no post com o seguinte endereço: –»» http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/percurso-d-guas-patrim-nios-imateriais-e-tang-veis-da-romanidade

Da Igreja de São João do Lumiar ao coração de Lisboa, passando por Odivelas, Caneças, Belas e Carenque procurando uma interpretação dos patrimónios imateriais e tangíveis.

MOMENTO I A Força da água na vida espiritual e corporal

A Igreja de São João do Lumiar fica situada no Largo São João Baptista, 1600-760 Lumiar – LISBOA. Esta Igreja tem dois oragos: São João Batista e Santa Brízida ou Brígida. Ambos os oragos estão relacionados com a água, daí o iniciar este percurso na Igreja/Largo de São João Batista, ao Lumiar.

Uma das descrições de S. João Batista, primo de Jesus Cristo. É «Aquele que batiza em água», sendo que S. João Batista batizou o próprio Cristo nas águas do Rio Jordão.

Algumas citações sobre João Batista:

No Evangelho de São Mateus: 3,11 Eu [João Batista] batizo-vos em água para vos mover ao arrependimento; mas Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de Lhe levar as sandálias. Ele [Jesus Cristo] batizar-vos-á com o fogo do Espírito Santo.

       Em São Lucas: 3,16 – João [Batista] disse-lhes a todos: «Eu batizo-vos em água, mas vai chegar Quem é mais poderoso do que eu, Alguém cujas correias das sandálias não sou digno de desatar. Batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo».

       Em São João [o Evangelista]: 1,26 – João [Batista] respondeu-lhes: «Eu batizo em água; mas, no meio de vós, encontra-se Alguém que não conheceis; 1,27 – Aquele que vem depois de mim; e eu não sou digno de desatar a correia da Sua sandália». 1,28 – Isto passou-se em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava a baptizar. 1,33 – E eu não O conhecia [refere-se a Jesus Cristo], mas Aquele que me enviou a batizar em água, é que me disse: «Aquele sobre Quem vires o Espírito descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo.

       Em  São Marcos: 1,8 – «Eu [João Batista] batizarei em água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».

       Nos Atos dos Apóstolos: 1,5 – «Porquanto João [Batista], batizava em água, mas dentro de pouco tempo, vós sereis baptizados no Espírito Santo».

Na reconstrução desta Igreja entram vestígios manuelinos mas pode classificar-se mais propriamente nos estilos maneirista e barroco. Antes da reconstrução já existia outro templo, pois encontram-se ali encastradas e legendadas as três sepulturas referentes aos cavaleiros Hibérnios (da atual Irlanda) que, segundo a tradição e algumas fontes, trouxeram, no tempo de D. Dinis, a relíquia de Santa Brízida, destinada ao mosteiro de Odivelas. Porém, e milagrosamente, segundo algumas descrições e a lenda popular, a relíquia preferiu ficar no Lumiar, estando os restos depositados na igreja local.

Sendo este templo votado, em especial, a São João Batista, a sua imagem encontra-se ali num altar com 8 degraus. O número 8 está ali velado nos 8 degraus. Não será por acaso. O próprio padre João Caniço, numa entrevista in loco, respondendo à minha questão sobre o significado revelou-me tratar-se efetivamente duma referência à Maçonaria, pois esta Organização tem o número 8 como um dos mais simbólicos e tem ainda São João Batista em particular devoção.

       Santa Brízida ou Brígida

Também de importância particular no universo da cultura céltica é Santa Brízida que, segundo algumas interpretações, terá sido uma antiga deusa pagã convertida ao cristianismo e tornada santa. Há ali, na igreja do Lumiar, vários patrimónios, materiais e imateriais, associados a esta santa, internacionalmente venerada no Lumiar. A relação desta santa com São João Batista e com a água não é despropositada:

Primeiro –

Ambos são venerados no Lumiar. A São João Batista foi-lhe cortada a cabeça, bem como a Santa Brízida. A cabeça desta Santa ficou, milagrosamente no Lumiar quando os três cavaleiros hibérnios (também sepultados na igreja) a trouxeram para Portugal no ano de 1283, reinando D. Dinis.

Legenda na sepultura:

«AQUI NESTAS TRES SEPVLTURAS IAZÊ[M] ENTERADOS OS TRES CAVAL.ros / IBERNIOS Q[UE] TOVXERÃ[M] A CABECA DA B~E[M] AV~[E]NTURADA S. BRIZIDA VIR / G~E[M] NATVRAL DIBERNIA CUIA RELIQVIA ESTA NESTA CAPELA P[AR]A MEMO / RIA DO QVAL HOS OFICIAIS DA MESA DA B~E[M] AVENTURADA S. MÃODA / RÃO FAZER ESTE E~[M] IAN[EI]RO DE 1283»

Segundo –

Santa Brízida é protetora do mundo rural, não só dos animais, como dos pastores, do sol e do fogo; associada também à luz, à água e à fertilidade. Durante vários séculos no Lumiar e em Telheiras do termo da freguesia do Lumiar se fizeram romarias com gado e procissões a pedir proteção e chuva.

Invoca-se a proteção de Santa Brígida, nomeadamente para que não falte água. A imagem pictórica de Santa Brígida tem junto a si dois recipientes, o inferior virado para a Terra e o superior virado para o Céu.

MOMENTO II – Caneças

Com imagem de um cântaro no escudo de armas e bandeira da vila de Caneças é constituído pela iconografia relativa à presença de água. Uma bilha vermelha representa a água, o barro e a vida, envolvido com ramos de hera cuja planta está associada à simbologia da imortalidade e à força da vida vegetal.

Das cinco fontes que conhecemos em Caneças, apenas incluímos aqui a denominada “Fontainhas”. Por sinal é uma das que apresenta menos decoração. É a que está mais acessível ao público e tem significado para a cidade de Lisboa. Do lado oposto, apenas separado pela estrada, está situado o tanque das lavadeiras, tão conhecidas em Lisboa, inclusivamente pela voz de Amália Rodrigues.

       «Dos fregueses a conduta /  é pela roupa que se prova. / Mas lavada e bem enxuta / até fica como nova. Com Lisboa sem vaidade / a saloia pede meças. / Há mais burros na cidade / do que há burros em Caneças! […]». Extrato  “As Lavadeiras de Caneças” na revista a Rambóia, 1928. in http://jepleuresansraison.com/2009/12/23/amalia-1967-as-lavadeiras-de-canecas/

Na decoração do acesso às Fontainhas podemos encontrar várias imagens bidimensionais em nichos nas paredes, representando as cenas do fornecimento de água, produtos, transportes e animação relacionados com Lisboa. Estas imagens iconográficas revelam valor etnográfico, respeitante à primeira metade do século XX.

MOMENTO III – Vestígios da barragem romana e da Águas Livres

Por aqui se encontram edifícios e aquedutos que vão juntar-se a outros da parte ocidental de Caneças, Olival Santíssimo e outros ainda a jusante, seguindo quase paralelos à ribeira do sopé de Caneças, Casal e Serra da Silveira. Mais adiante estas nascentes e ribeira tomam o nome de Ribeira de Carenque.

Junto à estrada EN250, encontram-se os restos arqueológicos da Barragem Romana. Construída há cerca de 1750 anos, no século III, e cerca de 1500 antes das obras denominadas Águas Livres.

Ambas as estruturas, romanas e das Águas Livres, foram executadas para o fornecimento de água a Lisboa. Na altura da barragem o acesso do caudal à capital seria feito por Santo André, junto à Graça evitando, assim, a obra quase faraónica do aqueduto das Águas Livres em Alcântara. Contudo a barragem romana constituía uma inovação até mesmo em relação às Águas Livres do século XVIII/XIX pois o reservatório em barragem garantiria um caudal regular entre as várias épocas do ano.

Os vestígios da barragem romana encontram-se classificados como Imóvel de Interesse Público. Para lá desta classificação existe uma proposta da CM Sintra a fim de incluir os terrenos outrora abrangidos pela barragem. Consta que várias estruturas e vestígios do aqueduto das Águas Livres estão sobrepostos às antigas fundações romanas que seguiam o mesmo percurso ou muito próximo.

Na realidade encontrei vários pontos dos aquedutos onde a edificação é bem discernível, entre uma camada superior e outra inferior, como se de duas fases bem distintas no tempo e/ou na técnica se tratasse. Contudo não tenho a certeza se a camada inferior é efetivamente romana. De qualquer modo, a estrutura executada no século XVIII terá aproveitado muitos materiais líticos e partes do aqueduto romano, seguindo de perto a ribeira de Belas, Carenque e Amadora.

Tags: Águas Livres, barragem romana, Belas, Caneças, Carenque, Lisboa, Lumiar, património imaterial, património tangível, Santa Brízida ou Brígida, São João Batista.

 Fontes:

-Anciães, Alfredo Ramos; Janeira, Ana Luisa et al. Lisboa Entre Águas e Manufacturas. Lisboa: CML, iniciativa do Departamento do Património Cultural, colaboração de Marcas das Ciências e das Técnicas por altura do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios.- Resumo in Agenda Cultural de Lisboa, Abril, 20o9

-Bíblia Sagrada – Lisboa: Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos), 1984

-Fernandes, Júlio Cortez – Notas de aulas de Património Local em Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão, 2015/2015

-Nunes, Gabriela – Lisboa guarda segredos milenares. Santa Brígida, uma deusa céltica no Lumiar. Lisboa: Apenas Livros, 2011

Em linha–»

-Anciães, Alfredo Ramos – Pelos Trilhos do Conhecimento: Lisboa Entre patrimónios e Águas Livres  http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2009/03/20/PELOS-TRILHOS-DO-CONHECIMENTO_3A00_-LISBOA-ENTRE-PATRIM_D300_NIOS-E-_C100_GUAS-LIVRES.aspx

-Guedes, Gustavo – Significado dos símbolos  http://www.significadodossimbolos.com.br/busca.do?simbolo=Hera

-Junta de Freguesia de Caneças – Vila de Caneças, brasão de armas e bandeira http://www.ahbvc.pt/Canecas.htm ; http://www.ahbvc.pt/Canecas.htm

-Portal de Portugal / Wikimedia – Caneças https://pt.wikipedia.org/wiki/Cane%C3%A7as

Rodrigues, Amália (intérprete); Magalhães, Xavier de (letra); Freitas, Frederico de (música) – “As Lavadeiras [de Caneças]” . Executada inclusivamente no Olympia de Paris  in http://jepleuresansraison.com/2009/12/23/amalia-1967-as-lavadeiras-de-canecas/  ;  https://www.youtube.com/watch?v=9KNQWlVuSvY. Veja também http://aofundodaminharua1.blogspot.pt/2013/12/lavadeiras-de-canecas-da-revista.html ; http://porbase.bnportugal.pt/ipac20/ipac.jsp?session=1NO12801Y5069.415182&profile=porbase&uri=link=3100018~!1145936~!3100024~!3100022&aspect=basic_search&menu=search&ri=1&source=~!bnp&term=Freitas%2C+Alice%2C+ca+19–&index=AUTHORenu=search&ri=1&source=~!bnp&term=Freitas%2C+Alice%2C+ca+19–&index=AUTHOR