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ALÔ PHAROL ALÔ PORTUGAL

9 Ago

Alô Pharol, alô Armando

Que as comunicações a teu mando

Dos Açores até ao Minho

Percorram o bom caminho

Para Portugal valorizar,

Comunicar, quiçá alumiar,

Fazendo jus e glória

A séculos da nossa História.

Desde o interesse da Altice Group onde Armando Pereira tem uma participação de relevo, achei possível e curial a compra e aliança entre capitais, tecnologias e recursos humanos lusos e franceses. Na impossibilidade de recuperarmos a PT para a esfera pública; que ela fique em mãos de países e de gente com proximidades, com a qual mantemos fortes relações económicas e sem complexos históricos de parte a parte, não obstante as guerras peninsulares de inícios do século XIX.

Para lá da relação de confiança entres os dois países, o protagonista Armando Pereira é um homem prático que subiu a pulso, “comeu o pão que o diabo amassou”. Creio que é um amigo da terra natal, de Portugal e de França. Estará interessado em que a ex PT SGPS; agora denominada Pharol SGPS SA, tenha sucesso. Sabemos que as ações da bolsa não têm valorizado. Mas se a situação anterior se mantivesse, cremos que o resultado seria pior. Haja esperança e confiança e os bons resultados poderão aparecer.

Deixo aqui algumas notas históricas sobre os precedentes da Empresa para que o orgulho, no bom sentido, seja de novo exaltado. Vem isto a preceito da nova empresa se chamar PHarol, o que, em certo sentido, é uma visão sobre as origens; visão essa, projetada no futuro, porque, não há futuro sem um bom alicerce no passado.

A História organizada das comunicações, de interesse público, tem origem nos Pharoes (faróis na grafia atual).

O 2º Director-Geral dos Correios e 1º Director-Geral dos Correios, Telegraphos e Pharoes – Guilhermino Augusto de Barros escreve no seu relatório e memória histórica de 1889 que “O seculo XVI, em que a nossa glória de navegadores tocou o apogeu, marca, segundo parece, a epocha provável da iniciação do alumiamento de alguns pontos da costa do continente portuguez”. (1).

Sabemos que o início da atividade documentada dos Faróis, em Portugal, precedeu cerca de quatro anos a entrada dos Correios públicos. “A primeira noticia que temos de pharoes refere-se a 1515”. BARROS refere como fonte a “Chronologia da Piedade” por fr. Manuel de Monforte, pág. 194 a 197, 200, 201 a 214: “Parece que o primeiro pharol da costa de Portugal foi construído no Cabo de S. Vicente. D. Fernando Coutinho, bispo do Algarve, levado, talvez, d`estes impulsos de humanidade, mandou construir uma torre de pharol no convento de S. Vicente ao cabo do mesmo nome […]” (2).

Por esta altura os Faróis ainda eram rudimentares, não possuíam lentes de aumento e o alumiamento não era elétrico. Funcionavam com combustíveis tradicionais: lenha, cebo e azeite. Mas foi o início de uma atividade que nunca mais cessou e também do ponto de vista tecnológico. Em princípio, eram as irmandades que se ocupavam dos Faróis, por questões de humanidade, para evitar naufrágios e acidentes.

Em fase posterior são entregues à Marinha portuguesa. Depois passam para os Correios Telegraphos e Pharoes; novamente para a Marinha e, um dia, no futuro, quem sabe se não serão geridos pela atividade privada, tal como acontece com os correios e as telecomunicações, cujas atividades eram estatais. Contudo, a convicção e tradição era de que os correios e telecomunicações nunca poderiam passar para a esfera privada por constituírem um poder e também um perigo para a inviolabilidade das correspondências.

Em 1520, D. Manuel cria o ofício de Correio-mor. Em 1525 o cargo é ocupado, já no reinado de D. João III. Por razões de falta de dinheiros públicos, tal como na atualidade, este ofício foi privatizado e vendido por Filipe II em 1606 ao Correio-Mor Luís Gomes da Matta, a título hereditário. Luís Gomes da Matta era de família de origem judia com imensa riqueza. Esta família vem de Espanha, onde utilizava o apelido de Coronel. Terá sido expulsa de Espanha pelos reis católicos. Com a mudança de identidade vemos, pois, a comunidade judia a mudar de nomes adotando, frequentemente, termos e nomes relativos à Natureza. É o caso de Matta, Pereira, etc. (cf. PT.Chabad.Org). Porém, em:

-1797. O poder régio vem reivindicar, novamente, os negócios e o controlo das comunicações. É já com D. Maria I que o Estado expropria o Ofício do Correio, através de Alvará régio, a Manuel José da Maternidade da Mata de Sousa Coutinho indemnizando o proprietário. É então que o Correio passa para a dependência do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Vem isto, também, a propósito da gestão dos faróis, hoje à responsabilidade da Marinha Portuguesa. E pomos a questão: Quem sabe se, um dia, a administração, gestão e, quiçá, o equipamento não serão vendidos aos empresários da PHArol, ou outros concorrentes; especialmente quando a Marinha Portuguesa tiver de patrulhar com eficácia e eficiência a costa e o imenso mar que o novo mapa português nos atribui com uma das maiores áreas e recursos a nível mundial?

-1798. Um novo Alvará regula os Correios Marítimos para o território do Brasil, bem como os transportes: Diligências postais e passageiros entre Lisboa e Coimbra.

-1809. É introduzida a telegrafia visual, também dita óptica, na sequência da Guerra Peninsular. É ainda a Marinha que funciona com este equipamento, auxiliada pelas forças inglesas, por via das invasões francesas.

-1821. Tem início o Correio Marítimo, entre Portugal Continental, Madeira e Açores.

  1. São iniciadas as Reais Diligências da Posta, entre Aldeia Galega (Montijo) e Badajoz com vista às comunicações postais com Espanha.

-1832. O Telégrafo visual é instalado nos Açores, na sequência do estacionamento do Exército Liberal.

  1. Realiza-se uma Convenção Postal entre Portugal e França.

-1850. Convenção Postal entre Portugal e Espanha.

-1852. É criada a Direcção Geral de Correios e Postas do Reino no novo Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, presidido por António Maria Fontes Pereira de Melo.

-1855. Têm início as carreiras da Malaposta para correio e passageiros; primeiro entre Lisboa e Coimbra, estendendo-se depois até ao Porto. Neste mesmo ano tem início a Telegrafia Elétrica.

-1863. Começam a circular as ambulâncias ferroviárias postais de transporte, organização e entrega de malas de correio.

-1870. Têm início as primeiras mensagens por Cabo Telegráfico Submarino entre Portugal (Carcavelos) e Inglaterra (Porthcurno)

-1874. É Criada a União Postal Universal em Berna/Suíça para regular a atividade postal entre os países.

-1879. Estabelecem-se as primeiras conversações telefónicas com telefones portugueses, entre Lisboa, Bom Sucesso, Barreiro e Setúbal sobre as linhas telegráficas, únicas vias de telecomunicações elétricas existentes na altura.

  1. Dá-se a fusão das Direcções Gerais: Correios e Telégrafos/Faróis, sob a dependência do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria.

-1882. Os telefones precursores, então existentes, ponto a ponto, são integrados nas duas primeiras redes: a de Lisboa e a do Porto, sob a gestão da empresa concessionária – The Edison Gower Bell Telephone of Europe. Começa também a funcionar o primeiro locutório, denominado Estação Garret na casa Havaneza, ao Chiado.

-1887. A The Edison Gower Bell Telephone of Europe de Londres a funcionar em Lisboa e no Porto é adquirida pela The Anglo-Portuguese Telephone Company. Começa então a “nacionalização” das telecomunicações, embora o termo nacionalização seja algo forte para a altura.

-1911. Com a mudança de regime – monárquico para o republicano fazem-se reformas. Cria-se a Administração-geral dos Correios e Telégrafos (AGCT). Ao mesmo tempo dá-se-lhe autonomia administrativa e financeira. É a primeira vez que surge esta sigla, passando a representar a atividade de Correios, Telégrafos e Fiscalização das Indústrias Eléctricas. O telefone ainda não é referenciado na sigla, embora a exploração das primeiras redes date de 1882.

-1925.Constituição da CPRM – Companhia Portuguesa Rádio Marconi para fazer face à necessidade de comunicar entre o disperso Império português e comunicações internacionais.

-1936. É a vez da Madeira a operar com a telegrafia visual.

-1937. Surge a sigla CTT – Correios Telégrafos e Telefones e durante várias décadas chama-se, abreviadamente, CTF`s às Estações dos CTT que desempenham serviços de correio, telégrafo e telefone.

-1966. A Marconi em Portugal torna-se efetivamente em CPRM – Companhia Portuguesa Rádio Marconi através da nacionalização de 51% do capital.

1967. A APT – Anglo Portuguese Telephone dá origem aos TLP – Telefones de Lisboa e Porto, tornando-se a Companhia efetivamente nacional através do resgate efetuado pelo Estado português.

-1969. A Administração Geral dos CTT transformam-se em – CTT EP – Empresa Pública de Correios e Telecomunicações de Portugal.

-1983. Criação da Telepac para comutação e transmissão de dados.

-1987. No centro histórico de Carnide é instalada a primeira estação de comutação digital dos TLP.

-1989. Os TLP – Telefones de Lisboa e Porto transformam-se em TLP – Telefones de Lisboa e Porto, SA – Sociedade Anónima;

-1989. As estações centrais dos CTT e TLP incluem a tecnologia para o serviço de Telebip (telemensagens) parecendo, na altura, uma tecnologia e serviço a ser expandido mas que a introdução dos operadores móveis TMN e Telecel, apenas dois anos após, vêm “determinar” o declínio da Telemensagem/Telebip

-1991. O Estado português licencia A TMN – Telefones Móveis Nacionais e a congénere Telecel para exploração dos serviços GSM (Global System for Mobile Telecomunications)

-1992. A TMN inicia os seus serviços de telefonia móvel (GSM).

-1992. Cria-se: A Sociedade Gestora de Participações Sociais do sector empresarial do Estado, denominada Comunicações Nacionais, SA;

Os CTT – Empresa Pública; e Comunicações Nacionais, SA dão origem aos CTT – SA e Telecom Portugal SA, passando a existir duas empresas por cisão dos serviços CTT.

-1993. Início da TV Cabo na Madeira e Açores.

-1994. Fusão das empresas Telecom Portugal SA, Telefones de Lisboa e Porto, SA e Teledifusora de Portugal SA, resultando na empresa Portugal Telecom, SA. Começa a funcionar a TV Cabo;

-1994. Dá-se a fusão das empresas Telecom Portugal, SA com os TLP – Telefones de Lisboa e Porto, S.A., com a Teledifusora de Portugal, SA na única denominação de Portugal Telecom, SA;

-1994. Disponibilização do serviço Internet pela Telepac;

-1995. O portal Sapo – Serviço de Apontadores Portugueses é fundado na Universidade de Aveiro.

-1995-2000. A Portugal Telecom é privatizada em 5 fases.

-2007. Surge na Portugal Telecom o projeto MEO para os produtos: Televisão, internet, telefonia fixa e telemóvel.

-2008. A MEO entra ao serviço através do sistema IPTV (internet protocol television) em cabos de cobre.

-2009. A Meo opera pelo sistema FTTH (fiber-to-the-home) em cabos de fibra ótica.

-2014. A PT SGPS e a Oi acordam sobre um Memorando de Entendimento para a constituição dum Grupo de dimensão internacional. Mas eis que surge a crise e a problemática financeira ligada à Rioforte – sociedade de investimentos do Grupo Espírito Santo envolvida com a PT SGPS e a Oi, o que faz abortar os projetos de Telecomunicações entre o Brasil e Portugal

-2014/2015. Acabam as empresas/marcas PT Comunicações e a TMN com o nascimento da MEO – Serviços de Comunicações e Multimédia.

-2015. A Portugal Telecom/PT Portugal funde a PT Comunicações com a MEO – Serviços de Comunicações e Multimédia, resultando na designação de MEO-Serviços de Comunicações e Multimédia, SA;

-2015. A PT Portugal torna-se numa subsidiária da Altice Group. Em Portugal surge com o nome de PHarol, sendo Armando Pereira, o Presidente do Conselho de Administração, natural de Guilhofrei, concelho de Vieira do Minho e detentor de cerca de 30% do Grupo Altice.

Em conclusão, verifica-se através da mini cronologia aqui apresentada que a empresa de telecomunicações PHarol tem importantes antecedentes históricos. Primeiro os serviços eram explorados pelo Estado; depois por Empresas públicas, SA e por SGPS.

Armando Pereira não saberá de telecomunicações mas tudo parece indicar que tem bom senso no difícil contexto que tem pela frente. É um homem da Europa, português e francês por adoção. Esperamos que a Altice Group e a PHarol desenvolvam prestígio, tecnologias e negócios, fazendo jus à longa história das comunicações de Portugal.

Notas:

(1) BARROS: 1889, p.13

(2) Ibid, p.14

Tags: CTT, Correios, História, Pharol, Portugal-Telecom, PT, PT-Portugal, Telecomunicações

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo. “Allô Lisboa”. Lisboa: FPC Códice Ano VII Série II, 2004, págs 36-45.

-ANCIÃES, Alfredo; SALDANHA, Júlia, VARÃO, Isabel, et al. – Cronologia Postal e de Telecomunicações. Lisboa: CDI, Património Postal e de Telecomunicações da Fundação Portuguesa das Comunicações, 1990`s-2010.

-ALMEIDA, Joel; ANCIÃES, Alfredo; CORDEIRO, Ricardo; MOUTA, Margarida; SALDANHA, Júlia, SANTOS, Alva; VARÃO, Isabel, WEBER, Cristina – Comunicar na República. 100 Anos de Inovação e Tecnologia. Lisboa: Dupladesign; Fundação Portuguesa das Comunicações, [2010].

-BARROS, Guilhermino Augusto de – Relatório do Director Geral dos Correios, Telegraphos e Semaphoros relativo ao anno de 1889 precedido pela continuação da História dos Correios até ao fim de 1888 e de uma memoria historica acerca da telegrafia visual, electrica, terrestre, maritima, telephonica e semaphorica, desde o seu estabelecimento em Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1891.- Título do livro / relatório com 201 páginas, reeditado, composto e impresso por: G7 – Artes Gráficas, Ldª. Lisboa, 1992.

-BARROS, Guilhermino Augusto de; Direcção Geral dos Correios – Relatório Postal do Anno economico de 1877-1878 precedido de uma memoria historica relativa aos correios portuguezes desde o tempo de D. Manuel até aos nossos dias. Lisboa: Lallemant Frères, Typ. Fornecedores da Casa de Bragança, 1879.

Em linha:

-A nossa História –

http://www.telecom.pt/InternetResource/PTSite/PT/Canais/SobreaPT/Qu…

-Sobrenomes judaicos – http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1525027/jewish/Sob…

-Anciães, Alfredo – Minhas memórias

http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/37-minhas-mem-rias-e…

-MEO-Serviços de Comunicações e Multimédia, SA – https://pt.wikipedia.org/wiki/Meo

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41. AMORES E PATRIMÓNIOS LUSÓFONOS COMUNICADOS

27 Abr

Filha de D. Manuel I, a infanta D. Maria (1521-1577) nasce nos Paços da Ribeira e entrega a alma ao criador no seu Paço de Santos-o-Novo.

No ano em que vem ao mundo, falece seu pai, D. Manuel I (Alcochete, 1469 — Lisboa, 1521) e, pouco tempo após, a mondadeira leva a sua mãe – Dª Leonor de Áustria (1).

Dª Leonor (1498-1558), filha de Filipe, O Belo (1478-1506) (2) nasce em Bruxelas, atual Bélgica e falece em Talavera, Espanha. A mãe da infanta D. Maria, após enviuvar, deixa Portugal e regressa a Espanha. A infanta fica entregue a sua tia D. Catarina de Áustria, esposa de D. João III e irmã do Imperador Carlos V. A vida da Infanta fica, assim, subordina aos interesses do Reino e do Rei. 

D. João III ordena a constituição da sua casa – a Casa da Infanta, tendo esta 16 anos, com avultados bens, uma herança das maiores da Europa. A infanta torna-se senhora de cidades, vilas, terras e muitos outros bens em Portugal, Espanha e França. No seu paço particular apoia a música, literatura e artes manuais. Cria uma espécie de Universidade à dimensão da época. Desejada para casamento pelos príncipes de França, Espanha, Hungria, Espanha e Alemanha; e por Luís de Camões.

Como a realização de um amor carnal/material fosse impossível no contexto dos padrões culturais e sociais da época, desenvolve-se um Amor platónico que apenas é conhecido pela tradição e pela poesia de Camões. A principal razão de nenhum dos casamentos com a infanta se ter efetuado foi, certamente, o impedimento do seu irmão D. João III. Urgia evitar que D. Maria deixasse a Casa Real de Portugal com um importante dote que fazia falta à família e a Portugal.

Após a morte de D. João III, a infanta vai a Espanha. Visita a sua mãe e esta implora à filha que fique com ela e com as muitas fortunas que lhe cabem. Porém D. Maria promete regressar a Portugal e cumpre a palavra.

O adiamento ab eterno do casamento da infanta serve não só os propósitos de D. João III, bem como do seu tio, Carlos V, imperador do Sacro-Império Romano-Germânico e Rei da Espanha. Este monarca sabe da vontade de D. Leonor, mãe da infanta, em casar com o delfim de seu marido Francisco I de França (1497-1547). Carlos V convence os seus próximos de que a transferência dos bens da infanta e de sua mãe para França constitui um perigo para a paz gálica e hispânica.

Os valores da infanta não são apenas os da sua riqueza material. Dotada de grande inteligência, memória e cultura aprendida com sua família, aia e irmã (Luísa e Ângela Sigeia, de Toledo) que a iniciaram nas letras e nas artes, incluindo latim e música; com frei João Soares de Urró aprendeu vária teoria e escrituras sagradas. No seu Paço de Santos–o-Novo são ensinadas estas disciplinas e também artes manuais.

Além da Igreja, Convento e Hospital da Luz (ou de Nossa Senhora dos Prazeres) a infanta apoia várias outras instituições: Santa Helena do Calvário, Nossa Senhora dos Anjos, Capuchos Arrábidos e de Torres Vedras, S. Bruno, Santo Cristo dos Milagres (Santarém), S. Bento de Avis e Nossa Senhora da Encarnação (Lisboa). Dá início à Igreja de Santa Engrácia, apoia o Convento da Graça e o Mosteiro de São Bento; disponibiliza muitos recursos para vestir e dar de comer aos pobres.

Quanto aos bens materiais «[…] em 1571 o secretário do cardeal Alexandrino chamava-a “a princesa mais rica da christandade”, referindo-se a suas inumeráveis joias, e um milhão de bens patrimoniais, que ia gastando com os pobres».

Em 1577, pouco antes do falecimento, faz uma relação de bens e rendimentos, deixando-os em testamento, sobretudo para apoiar os necessitados. A publicação “O Instituto”, Nº 63 de 1916, pp. 283-288 apresenta uma súmula desse testamento. Prevendo a morte antes que a Igreja da Luz estivesse concluída “determinou a infanta que o seu corpo fosse provisoriamente depositado no mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas […]» (cf. ARAÚJO: 24), ali bem perto do seu Paço.

A trasladação para a Igreja do Mosteiro de Nossa Senhora da Luz de Carnide efetua-se em 1597, tal como consta na descrição das duas legendas infra. Sepultada definitivamente, segundo a sua vontade, em campa rasa e sem legenda. Contudo, os freires de Cristo acabam por lhe dedicar uma lápide situada no lado esquerdo da capela-mor, onde pode ler-se:

«A CAPELLA-MOOR D`ESTE MOSTEIRO DE NOSSA SNRA DA / LUZ E ESTE CRVZEIRO SÃO DA SEPOLTVRA (sic) DA SERENIS/SIMA IFFANTE DONA MARIA Q[UE] D[EU]S TE[M] FILHA D`ELREI DÕ / MANUEL E DA RAINHA DONA LIANOR SVA MOLHER NA / QVAL CAPELLA E CRVZEIRO SE NÃO DARA SEPOLTVRA A P[ESSO]A / ALGVVA DE QVALQVER CALIDADE QVE SEIA NEEM EM TEM / PO ALGVM SE FARÁ NHV~ DEPÓSITO NEM NENHUM LETE/REIRO POR ASSI ESTAR ASENTADO POR SVA M[AJESTA]DE E POR / CONTRATO SOLENE E CELEBRADO Q[VE] SE FEZ CO O PA/DRE CONFIRMADO PELO PA/DRE DO[M] PRIOR E MAIS PADRES DO SEV CONVENTO DE THOMAR / CUIO TRE[S]LADO ESTA NA TORRE DO TOMBO E NESTA CASA / DE NOSSA SNRA FALECEO A DEZ DO N FRº DE 1577.»

Porém, mais tarde é-lhe dedicada uma outra legenda sobre a própria pedra tumular: «AQVI JAZ / A IFFANTE DONA MARIA / FILHA DEL REI DÕ MANOEL / E DA RAINHA DONA LIANOR / FALECEO EM 1577».

No século XX, a sepultura chã é classificada como monumento nacional.

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Beleza, grandeza e simplicidade da infanta

O conde de Vila Franca (3) apresenta a infanta “[…] alta, de esplêndidas formas. Elegantíssima […] denotando grande energia e isenção de carácter, uma formusura suavíssima, bem revelada na alvura da pelle, no azul dos olhos vividos e na cor loira dos cabelos, que lhe coroavam de ouro a espaçosa e ampla fronte, onde o talento espontâneo evidentemente se expandia. Este talento era ainda abrilhantado por muita erudição e incessante amor ao estudo ” (4).

Diversos príncipes europeus desejaram-na para casamento, quer pela sua beleza, quer pela fortuna, porém a infanta de Portugal e da Luz de Carnide, em particular não aceita propostas e levantam-se suspeições de que o seu irmão D. João III contribuiu para essa situação.

“Seu viver tão ajustado era aos sãos princípios da religião, tão sereno e regular […] que mais parecia a Infanta uma religiosa vivendo em estreita clausura do que uma Princesa estadiando no meio do século na posse de fortuna colossal”. (cf. ARAÚJO, A. de Sousa: 19; O Instituto, nº 63 (1916), p. 54).

 «A própria Infanta no fervor da sua paixão pelo local chega a residir pontualmente em Carnide, tendo comprado as casas de D. Maria Coutinha que ficavam próximas da ermida». (ARAÚJO, A. de Sousa: 20, cita SOVERAL: l. 39 vº).

«Considerada no seu tempo a princesa mais rica herdeira da cristandade» (cf. ARAÚJO, A. de Sousa: 20-23). Usa a sua imensa riqueza para ajudar os pobres, quer em vida, quer depois da sua morte. Em 1577 faz uma relação de bens e rendimentos para apoiar os necessitados.

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O Amor Platónico de Camões pela Infanta

 José Maria Rodrigues (Coimbra, 1910) dedica um estudo ao amor platónico que Camões revelava pela infanta. Vai buscar a redondilha do “perdigão que perdeu a pena” como manifestação de melancolia e sofrimento, quiçá revelando um saudosismo e lusitanismo. Atribui a Camões sentimentos dolorosos ao considerar-se infeliz por não ver retribuído o mesmo amor. Tudo parece indicar que a redondilha de melancolia e sofrimento data da época da crise portuguesa que antecede o desastre de Alçácer Quibir. Próximo dos finais da vida, Camões revela o seguinte pensamento: “morro com a Pátria” (5)

«Perdigão, que o pensamento

Subio a um alto logar,

Perde a penna do voar,

Ganha a pena do tormento.

Não tem no ar, nem no vento,

Asas com que se sostenha.

Não ha mal que lhe não venha!

Quis voar a uma alta torre,

Mas achou-se desasado;

E vendo-se depennado.

De puro penado morre.

Se a queixumes se soccorre,

Lança no fogo mais lenha.

Não ha mal que lhe não venha!».

Carolina Michaëlis de Vasconcellos (6) também se dedicou ao tema dos amores platónicos de Camões pela infanta. O soneto citado por Carolina (7) é, na opinião desta filóloga, um dos que melhor caracterizam o amor não correspondido:

«Doce sonho, suave e soberano,

Se por mais longo tempo me durára!

Ah! quem de sonho tal nunca acordára,

Pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!

Se por mais largo espaço me enganára!

Se então a vida misera acabára,

De alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mi, pois tive.

Dormindo, o que acordado ter quisera.

Olhae com que me paga o meu destino!

Emfim, fóra de mim ditoso estive.

Em mentiras ter dita razão era,

Pois sempre nas verdades fui mofino»

[mofino = desgraçado, desventurado].

Outro soneto, muito conhecido e divulgado nos estudos de José Maria Rodrigues, Coimbra, 1910 e no blogue de Montalvo é dos que mais revela a desilusão de tanto ter errado, suspirado e lamentado por erros que incluem o amor não correspondido:

«Erros meus, má fortuna, amor ardente

Em minha perdição se conjuraram;

Os erros e a fortuna sobejaram,

Que para mim bastava amor, somente.

Tudo passei, mas tenho tão presente

A grande dor das cousas que passaram,

Que já as frequências suas me ensinaram

A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o decurso de meus anos;

Dei causa a que a fortuna castigasse

As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.

Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse

Este meu duro Génio de vinganças!»

José Maria Rodrigues classifica o poeta da epopeia como:

«[…] o genial doido, ao comparar [o próprio poeta] com o perdigão desasado, se devia recordar, com amarga saudade, do tempo, não muito afastado, em que julgava pôr o pensamento em tão alto lugar!»

«Num tão alto lugar, de tanto preço,

Este meu pensamento posto vejo,

Que desfalece nele inda o desejo,

Vendo quanto por mi o desmereço.

Quando esta tal baixeza em mi conheço,

Acho que cuidar nele é grão despejo,

E que morrer por ele me é sobejo

E mór bem para mi, do que mereço.

O mais que natural merecimento

De quem me causa um mal tão duro e forte,

O faz que vá crescendo de hora em hora.

Mas eu não deixarei meu pensamento,

Porque, inda que este mal me cause a morte,

Un bel morir tutta la vita honora.»

Neste soneto, Camões (1524-1580) reconhece a sua pequenez de estatuto social perante tão altíssimo e nobre amor, em relação à infanta D. Maria, evidenciado em –

“Quando esta tal baixeza em mi conheço”.

Ainda estamos no período clássico renascentista da literatura. Camões denuncia: “[…] um mal tão duro e forte / O que faz que vá crescendo de hora em hora”. Contudo, ainda não está cansado de tanta desilusão, como no final dos seus dias. A força de vontade e um certo contentamento são evidenciados entre o grande sofrimento –

 “Porque, inda que este mal me cause a morte, / Un bel morrir tutta la vita honora.”

Verificamos que a descrição acerca da infanta tem como base as descrições de fr. Roque do Soveral, em “História do insigne do aparecimento de Nª Srª da Luz e suas obras”; George Cardoso em “Hagiológico Lusitano”, sendo o primeiro da altura do decadentismo, com a perda da independência e o segundo já depois da restauração e ainda coincidente com a estética barroca.

Outras fontes acerca da infanta são as de Norberto de Araújo em “Inventário de Lisboa” (8); António de Sousa Araújo – escritor na Editorial Franciscana em “O Santuário da Luz – Glória de Carnide”.

Estas descrições pendem para o lado laudatório com reminiscências de saudosismo e lusitanismo.

Camões, por sua vez é destacado como o grande poeta da epopeia, o etermo apaixonado, conhecedor do ambiente da Corte mas pobre e, nos finais, caído na desgraça, juntamente com a Pátria. José Maria Rodrigues e Carolina Michaëlis de Vasconcellos analisaram a vida e obra de Camões entre finais do século XIX e primeiro quartel do século XX, também num tempo de saudosismo e lusitanismo.

Nota final: para quem estiver interessado, a freguesia de Carnide preserva marcas físicas e memoriais referentes à infanta, amiga de Carnide; desde a sua sepultura, legendas, brasão, um retrato no retábulo esquerdo do cruzeiro da igreja e documentação afim.

Notas:

(1) Dª Leonor de Áustria, também dita de Habsburgo ou de Espanha, 3ª esposa de D. Manuel I, arquiduquesa da Áustria, princesa de Espanha e sucessivamente rainha de Portugal e de França, após casamento em segundas núpcias com Francisco I.

(2) Filipe, O Belo (1478-1506) rei consorte de Castela por se ter casado com a rainha Joana, a louca, filha dos reis católicos.

(3) Condes de Vila Franca, da família Gonçalves da Câmara (séc. XVI-XVII).

(4) RODRIGUES, José Maria “Ful text of “Camões e a Infanta D, Maria” in https://archive.org/stream/cameseinfantad00rodruoft/cameseinfantad00rodruoft_djvu.txt

(5) Frase citada in.Obras de Luiz de Camões: precedidas de um ensaio biographico, no qual se relatam alguns factos não conhecidos da sua vida augmentadas com algumas composições inéditas do poeta pelo Visconde de Juromenha …” … Francesco Petrarca. Lisboa: Imprensa Nacional, 1860, volume 1, p. 148

(6)Carolina Wilhelma Michaëlis de Vasconcelos. Nasceu em Berlim, na altura reino da Prússia, em 1851. Faleceu no Porto, em 1925. Contudo é considerada portuguesa, quer pelo seu casamento com Joaquim António da Fonseca de Vasconcelos, quer pelo grande sentimento português, tendo mesmo dirigido a revista Lusitânia, daí o seu lusitanismo na análise da obra da Infanta e de Camões. (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_Micha%C3%ABlis )

(7)Cf. VASCONCELOS   A infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas Porto: 1902, p. 4

(8)Acerca deste movimento e suas reminiscências cf. ARAUJO, Ana Paula in http://www.infoescola.com/movimentos-culturais/saudosismo-portugues/

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, 2013

-ARAÚJO, António de Sousa – O Santuário da Luz – Glória de Carnide. Lisboa – Braga: Paróquia de Carnide (Edit.); Oficinas Gráficas da Livraria Editora Pax. Ldª (Imp.), 1977

-ARAÚJO, Norberto de – Camões não foi bem como Aquilino o viu “conferência proferida na Camara Municipal de Lisboa, 4 de Julho de 1949

————- – Inventário de Lisboa. Lisboa: 1955

-CARDOSO, George – Hagiológico Lusitano, II, Lisboa: 1657

-O Instituto, nº 63 (1916)

-SOVERAL, Fr. Roque do – História do insigne aparecimento de Nª Srª da Luz e suas obras. Lisboa: 1610

VASCONCELOS, Carolina Michaëlis A infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas. Porto: Edição facsimilizada da Typ. a Vapor Arthur José de Souza, 1902

Fontes em linha acedidas em 23.4.2015:

A Infanta D. Maria. A amiga dos carenciados e de Carnide. http://www.arqnet.pt/dicionario/maria_inf7.html); http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/2011/09/infanta-d-maria-de-portugal-1521-1577_29.html ; http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/2010/08/camoes-e-infanta-d-maria-parte-i-o-meus.html ; http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/luis-de-camoes/doce-sonho-suave-e-soberano-1668.php; http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.pt/http://sonetoscamonianos.blogspot.pt/2009/03/erros-meus-ma-fortuna-amor-ardente.html; http://www.jornaldepoesia.jor.br/camoes80.html ; RODRIGUES, José Maria “Ful text of “Camões e a Infanta D, Maria” in https://archive.org/stream/cameseinfantad00rodruoft/cameseinfantad00rodruoft_djvu.txt