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61. UM PERCURSO D`ÁGUAS: PATRIMÓNIOS IMATERIAIS E TANGÍVEIS – DA ROMANIDADE À ATUALIDADE

3 Jan

          Nota prévia: poderá aceder a todas as imagens no post com o seguinte endereço: –»» http://museologiaporto.ning.com/profiles/blogs/percurso-d-guas-patrim-nios-imateriais-e-tang-veis-da-romanidade

Da Igreja de São João do Lumiar ao coração de Lisboa, passando por Odivelas, Caneças, Belas e Carenque procurando uma interpretação dos patrimónios imateriais e tangíveis.

MOMENTO I A Força da água na vida espiritual e corporal

A Igreja de São João do Lumiar fica situada no Largo São João Baptista, 1600-760 Lumiar – LISBOA. Esta Igreja tem dois oragos: São João Batista e Santa Brízida ou Brígida. Ambos os oragos estão relacionados com a água, daí o iniciar este percurso na Igreja/Largo de São João Batista, ao Lumiar.

Uma das descrições de S. João Batista, primo de Jesus Cristo. É «Aquele que batiza em água», sendo que S. João Batista batizou o próprio Cristo nas águas do Rio Jordão.

Algumas citações sobre João Batista:

No Evangelho de São Mateus: 3,11 Eu [João Batista] batizo-vos em água para vos mover ao arrependimento; mas Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de Lhe levar as sandálias. Ele [Jesus Cristo] batizar-vos-á com o fogo do Espírito Santo.

       Em São Lucas: 3,16 – João [Batista] disse-lhes a todos: «Eu batizo-vos em água, mas vai chegar Quem é mais poderoso do que eu, Alguém cujas correias das sandálias não sou digno de desatar. Batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo».

       Em São João [o Evangelista]: 1,26 – João [Batista] respondeu-lhes: «Eu batizo em água; mas, no meio de vós, encontra-se Alguém que não conheceis; 1,27 – Aquele que vem depois de mim; e eu não sou digno de desatar a correia da Sua sandália». 1,28 – Isto passou-se em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava a baptizar. 1,33 – E eu não O conhecia [refere-se a Jesus Cristo], mas Aquele que me enviou a batizar em água, é que me disse: «Aquele sobre Quem vires o Espírito descer e permanecer é que batiza no Espírito Santo.

       Em  São Marcos: 1,8 – «Eu [João Batista] batizarei em água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo».

       Nos Atos dos Apóstolos: 1,5 – «Porquanto João [Batista], batizava em água, mas dentro de pouco tempo, vós sereis baptizados no Espírito Santo».

Na reconstrução desta Igreja entram vestígios manuelinos mas pode classificar-se mais propriamente nos estilos maneirista e barroco. Antes da reconstrução já existia outro templo, pois encontram-se ali encastradas e legendadas as três sepulturas referentes aos cavaleiros Hibérnios (da atual Irlanda) que, segundo a tradição e algumas fontes, trouxeram, no tempo de D. Dinis, a relíquia de Santa Brízida, destinada ao mosteiro de Odivelas. Porém, e milagrosamente, segundo algumas descrições e a lenda popular, a relíquia preferiu ficar no Lumiar, estando os restos depositados na igreja local.

Sendo este templo votado, em especial, a São João Batista, a sua imagem encontra-se ali num altar com 8 degraus. O número 8 está ali velado nos 8 degraus. Não será por acaso. O próprio padre João Caniço, numa entrevista in loco, respondendo à minha questão sobre o significado revelou-me tratar-se efetivamente duma referência à Maçonaria, pois esta Organização tem o número 8 como um dos mais simbólicos e tem ainda São João Batista em particular devoção.

       Santa Brízida ou Brígida

Também de importância particular no universo da cultura céltica é Santa Brízida que, segundo algumas interpretações, terá sido uma antiga deusa pagã convertida ao cristianismo e tornada santa. Há ali, na igreja do Lumiar, vários patrimónios, materiais e imateriais, associados a esta santa, internacionalmente venerada no Lumiar. A relação desta santa com São João Batista e com a água não é despropositada:

Primeiro –

Ambos são venerados no Lumiar. A São João Batista foi-lhe cortada a cabeça, bem como a Santa Brízida. A cabeça desta Santa ficou, milagrosamente no Lumiar quando os três cavaleiros hibérnios (também sepultados na igreja) a trouxeram para Portugal no ano de 1283, reinando D. Dinis.

Legenda na sepultura:

«AQUI NESTAS TRES SEPVLTURAS IAZÊ[M] ENTERADOS OS TRES CAVAL.ros / IBERNIOS Q[UE] TOVXERÃ[M] A CABECA DA B~E[M] AV~[E]NTURADA S. BRIZIDA VIR / G~E[M] NATVRAL DIBERNIA CUIA RELIQVIA ESTA NESTA CAPELA P[AR]A MEMO / RIA DO QVAL HOS OFICIAIS DA MESA DA B~E[M] AVENTURADA S. MÃODA / RÃO FAZER ESTE E~[M] IAN[EI]RO DE 1283»

Segundo –

Santa Brízida é protetora do mundo rural, não só dos animais, como dos pastores, do sol e do fogo; associada também à luz, à água e à fertilidade. Durante vários séculos no Lumiar e em Telheiras do termo da freguesia do Lumiar se fizeram romarias com gado e procissões a pedir proteção e chuva.

Invoca-se a proteção de Santa Brígida, nomeadamente para que não falte água. A imagem pictórica de Santa Brígida tem junto a si dois recipientes, o inferior virado para a Terra e o superior virado para o Céu.

MOMENTO II – Caneças

Com imagem de um cântaro no escudo de armas e bandeira da vila de Caneças é constituído pela iconografia relativa à presença de água. Uma bilha vermelha representa a água, o barro e a vida, envolvido com ramos de hera cuja planta está associada à simbologia da imortalidade e à força da vida vegetal.

Das cinco fontes que conhecemos em Caneças, apenas incluímos aqui a denominada “Fontainhas”. Por sinal é uma das que apresenta menos decoração. É a que está mais acessível ao público e tem significado para a cidade de Lisboa. Do lado oposto, apenas separado pela estrada, está situado o tanque das lavadeiras, tão conhecidas em Lisboa, inclusivamente pela voz de Amália Rodrigues.

       «Dos fregueses a conduta /  é pela roupa que se prova. / Mas lavada e bem enxuta / até fica como nova. Com Lisboa sem vaidade / a saloia pede meças. / Há mais burros na cidade / do que há burros em Caneças! […]». Extrato  “As Lavadeiras de Caneças” na revista a Rambóia, 1928. in http://jepleuresansraison.com/2009/12/23/amalia-1967-as-lavadeiras-de-canecas/

Na decoração do acesso às Fontainhas podemos encontrar várias imagens bidimensionais em nichos nas paredes, representando as cenas do fornecimento de água, produtos, transportes e animação relacionados com Lisboa. Estas imagens iconográficas revelam valor etnográfico, respeitante à primeira metade do século XX.

MOMENTO III – Vestígios da barragem romana e da Águas Livres

Por aqui se encontram edifícios e aquedutos que vão juntar-se a outros da parte ocidental de Caneças, Olival Santíssimo e outros ainda a jusante, seguindo quase paralelos à ribeira do sopé de Caneças, Casal e Serra da Silveira. Mais adiante estas nascentes e ribeira tomam o nome de Ribeira de Carenque.

Junto à estrada EN250, encontram-se os restos arqueológicos da Barragem Romana. Construída há cerca de 1750 anos, no século III, e cerca de 1500 antes das obras denominadas Águas Livres.

Ambas as estruturas, romanas e das Águas Livres, foram executadas para o fornecimento de água a Lisboa. Na altura da barragem o acesso do caudal à capital seria feito por Santo André, junto à Graça evitando, assim, a obra quase faraónica do aqueduto das Águas Livres em Alcântara. Contudo a barragem romana constituía uma inovação até mesmo em relação às Águas Livres do século XVIII/XIX pois o reservatório em barragem garantiria um caudal regular entre as várias épocas do ano.

Os vestígios da barragem romana encontram-se classificados como Imóvel de Interesse Público. Para lá desta classificação existe uma proposta da CM Sintra a fim de incluir os terrenos outrora abrangidos pela barragem. Consta que várias estruturas e vestígios do aqueduto das Águas Livres estão sobrepostos às antigas fundações romanas que seguiam o mesmo percurso ou muito próximo.

Na realidade encontrei vários pontos dos aquedutos onde a edificação é bem discernível, entre uma camada superior e outra inferior, como se de duas fases bem distintas no tempo e/ou na técnica se tratasse. Contudo não tenho a certeza se a camada inferior é efetivamente romana. De qualquer modo, a estrutura executada no século XVIII terá aproveitado muitos materiais líticos e partes do aqueduto romano, seguindo de perto a ribeira de Belas, Carenque e Amadora.

Tags: Águas Livres, barragem romana, Belas, Caneças, Carenque, Lisboa, Lumiar, património imaterial, património tangível, Santa Brízida ou Brígida, São João Batista.

 Fontes:

-Anciães, Alfredo Ramos; Janeira, Ana Luisa et al. Lisboa Entre Águas e Manufacturas. Lisboa: CML, iniciativa do Departamento do Património Cultural, colaboração de Marcas das Ciências e das Técnicas por altura do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios.- Resumo in Agenda Cultural de Lisboa, Abril, 20o9

-Bíblia Sagrada – Lisboa: Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos), 1984

-Fernandes, Júlio Cortez – Notas de aulas de Património Local em Universidade Sénior de Massamá e Monte Abraão, 2015/2015

-Nunes, Gabriela – Lisboa guarda segredos milenares. Santa Brígida, uma deusa céltica no Lumiar. Lisboa: Apenas Livros, 2011

Em linha–»

-Anciães, Alfredo Ramos – Pelos Trilhos do Conhecimento: Lisboa Entre patrimónios e Águas Livres  http://comunidade.sol.pt/blogs/alfredoramosanciaes/archive/2009/03/20/PELOS-TRILHOS-DO-CONHECIMENTO_3A00_-LISBOA-ENTRE-PATRIM_D300_NIOS-E-_C100_GUAS-LIVRES.aspx

-Guedes, Gustavo – Significado dos símbolos  http://www.significadodossimbolos.com.br/busca.do?simbolo=Hera

-Junta de Freguesia de Caneças – Vila de Caneças, brasão de armas e bandeira http://www.ahbvc.pt/Canecas.htm ; http://www.ahbvc.pt/Canecas.htm

-Portal de Portugal / Wikimedia – Caneças https://pt.wikipedia.org/wiki/Cane%C3%A7as

Rodrigues, Amália (intérprete); Magalhães, Xavier de (letra); Freitas, Frederico de (música) – “As Lavadeiras [de Caneças]” . Executada inclusivamente no Olympia de Paris  in http://jepleuresansraison.com/2009/12/23/amalia-1967-as-lavadeiras-de-canecas/  ;  https://www.youtube.com/watch?v=9KNQWlVuSvY. Veja também http://aofundodaminharua1.blogspot.pt/2013/12/lavadeiras-de-canecas-da-revista.html ; http://porbase.bnportugal.pt/ipac20/ipac.jsp?session=1NO12801Y5069.415182&profile=porbase&uri=link=3100018~!1145936~!3100024~!3100022&aspect=basic_search&menu=search&ri=1&source=~!bnp&term=Freitas%2C+Alice%2C+ca+19–&index=AUTHORenu=search&ri=1&source=~!bnp&term=Freitas%2C+Alice%2C+ca+19–&index=AUTHOR

45. FESTAS JUNINAS – DO PAGANISMO AO POPULAR

12 Jun

Raízes e manifestações na comunicação, fé, etnografia, arte e animação.

Estas festas populares são conhecidas por festas juninas, dado serem realizadas no mês de junho quando, no hemisfério norte, se aproxima o solstício de Verão e o tempo é de grande vitalismo para a natureza. Tudo parece indicar que na origem destas festas há um fundo pagão (1). O processo de cristianização foi-se mesclando com novos hábitos e novas manifestações. Contudo há uma essência que se mantém.

O primeiro dos santos populares a ser festejado é Santo António, devido à data da sua morte ter ocorrido a 13 de junho. Venerado em quase todo o mundo cristão com especial destaque para a cidade natal, Lisboa.

Com fama de santo milagreiro, foi canonizado em 1232, no ano seguinte ao da sua morte. O processo de canonização foi dos mais rápidos da História eclesiástica, tal era a consideração e fama de que gozava entre a hierarquia eclesial e a população.

Para lá de santo foi proclamado Doutor da Igreja em 1946 pelo Papa Pio XII (2).

Na Arte tem representação na escultura, pintura, numismática, filatelia e museografia, com destaque para o Museu da Cidade / Museu Antoniano de Lisboa e Igreja de Santo António. Fernando de Bulhões, nome de batismo de Santo Antoninho, como é carinhosamente chamado por muita gente, nasceu a dois passos da Sé Catedral.

Tendo crescido junto à Matriz e estudado na vizinhança, em São Vicente de Fora, não admira a densidade de representação artística na cidade. Ademais, o Papa Leão XIII (3) intitulou-o de “Santo de todo o mundo”. São dignas de nota as manifestações populares do enfeite das ruas, escadinhas, largos e outros espaços públicos com destaque para os bairros e sítios com antiguidade.

Um dos exemplos marcantes de envolvimento público e do poder local nas marchas é o caso da freguesia de Carnide que criou o seu próprio marchódromo no Largo da Luz, junto ao convento dos franciscanos. Carnide apresenta-se com nada menos do que nove Marchas, no referido marchódromo. Seis Marchas são infantis, organizadas nas Escolas locais, e ainda a “Marcha dos Avós”, a “Grande Marcha Popular do Teatro de Carnide” e uma Marcha convidada.

O Porto rivaliza com o seu santo milagreiro, São João. As pessoas saem em massa à rua, manifestando-se com os martelinhos. Há ainda quem leve os alhos-porros. Sardinhas, petiscos e bebidas são consumidas em abundância. Sons, cantares e alegria transbordante.

(Festa do Município de Tabuaço – Imagem do andor de São João Batista. Gentileza de Manuel Gonçalves in  http://tbcparoquia.blogspot.pt/2014/06/festa-do-municipio-de-tabuaco-sao-joao.html )

São João comemora-se no dia 24, coincidindo com a data do seu nascimento, e não com a data da sua morte, como é comum entre os santos. Consta que São João Batista era primo de Jesus Cristo e é reverenciado não só pelos cristãos, como em certas partes do mundo islâmico, encontrando-se sepultado numa mesquita em Damasco; também é venerado pelo espiritismo, e pela maçonaria, entre outros credos. A razão da comemoração no dia do nascimento deve-se ao facto de ter sido considerado puro ainda dentro do ventre materno.

É aqui que entra a comunicação do mensageiro, anjo Gabriel, reconhecido como padroeiro dos correios e das telecomunicações com a seguinte anunciação:

“5Nos dias de Herodes, rei da Judeia, existiu um sacerdote chamado Zacarias [pai de João Baptista] […] cuja esposa era da descendência de Aarão e se chamava Isabel” […]. “7Não tinham filhos, pois Isabel era estéril e os dois de idade avançada. 8Ora, estando Zacarias no exercício das funções sacerdotais diante de Deus, na ordem da sua turma, 9coube-lhe, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso. […] 11Apareceu-lhe, então o anjo do Senhor, de pé, à direita do altar do incenso. 12Ao vê-lo Zacarias ficou perturbado e encheu-se de temor. 13Mas o anjo disse-lhe: «Não tenhas receio, Zacarias, a tua súplica foi atendida. Isabel, tua mulher, vai dar-te um filho e chamar-lhe-ás João. 14Será para ti, motivo de regozijo e de júbilo, e muitos se regozijarão com o seu nascimento. 15Será grande aos olhos do Senhor […] cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe 16e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. 17Irá à frente, diante d`Ele [de seu primo Jesus Cristo] […]» 18Zacarias disse ao anjo: «Como hei-de verificar isso, se estou velho e minha mulher avançada em anos?» 19O anjo respondeu: «Sou Gabriel, aquele que está diante de Deus, e fui enviado para te falar e dar-te estas novas»”. (Cf. Lc 1, 5-19)

São Pedro é o terceiro santo popular a ser festejado, a 29 do mesmo mês. Nasce cerca do ano 1 a.C. na Palestina. Terá sido, em primeiro lugar, discípulo de João Batista e amigo de João Evangelista.

Deixa a vida de empreendedor na arte da pesca para seguir o Mestre. Após a condenação à morte do Mestre, Pedro segue a missão de Apóstolo, tendo sido martirizado em Roma, cerca do ano 67. Não se sabe ao certo o dia nem o mês em que foi crucificado na capital do Império, daí comemorar-se a 29 de junho. Esta data correspondente ao dia em que os restos mortais foram trasladados, em segredo, para as Catacumbas de S. Sebastião, em Roma, decorrendo o ano 257.

A popularidade vem-lhe, possivelmente, da origem de humilde pescador e da entrega e coragem na condução da Igreja nos primeiros anos do cristianismo. Em Portugal é venerado e festejado como um dos três santos populares.

A notoriedade como santo que abre as portas do Céu é relevante no imaginário popular, daí o ser frequentemente representado com as chaves na mão. O próprio Cristo comunica-lhe:

«18Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja […] 19«Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo quanto ligares na terra ficará ligado nos céus, e tudo quanto desligares na terra será desligado nos céus» (Mt 16, 18-19).

Na minha comarca e envolvimento, também se festejam os santos populares com grande entusiasmo, especialmente o São João, em Moimenta da Beira e em Tabuaço com liturgias, marchas populares, arraial, programas de desporto e animação; e na sede do concelho de Penedono onde à religiosidade e animação se junta uma importante feira anual onde ocorre gente local e das vizinhanças (Douro Sul, Terras do Demo e de Magriço).

O mês de junho marca, por assim dizer, o início das festas estivais onde comparecem conterrâneos e residentes de várias partes do mundo, reunidos pelo cunho religioso, artístico, etnográfico e copiosa animação de tradição gentia.

Notas:                              

(1) V. Paganismo e Cristianismo in http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianismo_e_paganismo; Cristianismo in http://pt.wikipedia.org/wiki/Cristianiza%C3%A7%C3%A3o e Festas juninas in http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_junina

(2) Pio XII considera Santo António um «exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística».

(3) Leão XIII (Itália: n.1810 – m.1903); Papa entre 1878-1903. No seu tempo de condução da Igreja Católica escreveu dezenas de encíclicas, entre as quais a Rerum Novarum (1891) em que faz a defesa dos trabalhadores, pondo a questão social em plano primaz, defendendo a subsidiariedade dos poderes e a Democracia que na altura era ainda uma miragem, mesmo a nível europeu. Está relacionado com Portugal, não só na questão de Santo António (português/italiano) mas também na concessão do pedido da Congregação das Irmãs do Bom Pastor (então com sede no Porto) para a consagração do Mundo ao Sagrado Coração de Jesus. Estas irmãs tiveram e têm um papel relevante na educação e assistência social.

Fontes:

-ANCIÃES, Alfredo Ramos – Alma e Luz de Carnide. Lisboa: Apenas Livros, 2013

——————— – Um Percurso por Lisboa: Seguindo o Elétrico 28. UAL: Instituto de Artes e Ofícios (pós grad. em Gestão de Recursos Turísticos e Culturais), 1997

-Bíblia Sagrada – Lisboa: Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos), 11ª ed., 1984

-Câmara Municipal de Lisboa: EGEAC – Festaslisboa´15, 2015

-Carnide Boletim Informativo da Junta de Freguesia, nº 142, Junho 2015.

Imagens: Santo António, Voz do Operário; Marcha Infantil de Carnide.- Arq. AA; São João Baptista em Tabuaço, gentileza de Manuel Gonçalves in http://tbcparoquia.blogspot.pt/2014/06/festa-do-municipio-de-tabuaco-sao-joao.html

Em linha, acedidas em 10.6.2015:

-Festas de São João, Moimenta da Beira in http://www.freguesias.pt/portal/noticia.php?id=5589&cod=180710

-Penedono: Festividades do padroeiro S. Pedro et al. in https://www.facebook.com/pages/Concelho-de-Penedono/353106204743852

-Santo António – biografia in http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Ant%C3%B3nio_de_Lisboa#Biografia

-Santo António, Lisboa in http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Ant%C3%B3nio_de_Lisboa

-São João Batista in http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Batista#S.C3.A3o_Jo.C3.A3o_Batista_no_Islamismo; http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Batista, https://www.google.pt/?gws_rd=ssl#q=s%C3%A3o+jo%C3%A3o+batista

-São Pedro in http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Pedro

-Tradições das festas juninas in http://www.suapesquisa.com/musicacultura/tradicoes_festa_junina.htm

-Vidas lusófonas – Santo António de Lisboa in http://www.vidaslusofonas.pt/santo_antonio_de_lisboa.htm

38. PORTUGAL É MEMÓRIA É PRESENTE É MAR E É FUTURO

17 Abr

Portugal é Memória, é Presente, é Mar e é Futuro que clama por sucessos mil. Os sinos da Sé de Lisboa dão o sinal de início de Revolução para a Reconquista da Independência e Liberdade.

“Tlão … ressoam os bronzes da sé … tlão … badaladas, lentas no respirar suspenso … tlão … arrastadas no nervoso dos corações … tlão … seus semblantes rígidos, olhos vigilantes … tlão … cinco … as mãos aferradas às coronhas das pistolas … tlão … seis … dos punhos de punhais, dos cutelos … tlão … sete … ih! cum raio! … tlão … oito …

Ao soar da última pancada, as sentinelas vêem chegar um fidalgo que se apeia de pomposo coche, como a ter audiência com Sua Excelência o secretário de estado … [Miguel de Vasconcelos].

– A esta hora? – dá um passo em frente um dos guardas, a alabarda atravessada a barrar caminho.- Sua Excelência está ainda recolhido. Não é ocasião de despacho. Mostrai-me a convocatória …

– E quem és tu para me embargares a subir? – e o punhal resolve o caso, vai o outro a abrir a boca a gritar o alerta, já alguém surgido do lado lhe corta o grito com a lâmina afiada.

Saídos das sombras dos arcos, sobem os revoltosos a escadaria a toda a pressa. Sentem o arruído os alabardeiros e acodem de armas em riste. Cruzam-se, tinem, faíscam espadas, soam tiros, Miguel de Almeida, de saber em punho, assoma à varanda – esvoaço-lhe [é o vento a narrar] os cabelos brancos – e grita ao povo:

– Liberdade! Liberdade! Tempo de comprar com sangue a liberdade da pátria e acabar com a tirania de Castilha. Viva Sua Alteza o duque de Bragança! Viva el-rei Dom João quarto!

Em baixo, com eco, lágrimas a escorrerem pelas faces, reboa o clamor das gentes:

– Viva el-rei Dom João quarto!

O troço destinado ao forte põe em fuga os soldados castelhanos. Não sem luta. Combatem rijo […]”  (1)

&

Torres e sinos de transmissão mensageira

No meu país sois património de importância primeira.

Despertais atenção e comunicação;

quiçá dor alvoroço alegria aflição

tempo festa folia reunião e revelação.

Por altura da Páscoa lembram-me os toques dos sinos na minha aldeia. Excluindo o período de paixão e vigília (2) desde tempos remotos se utilizaram os sinos. Regularmente ao alvorecer podia ouvir o toque das almas. Ao meio-dia e cinco minutos o Ângelus lembrava a Anunciação do Anjo Gabriel a Maria. Os fiéis respondiam com uma Avé Maria. Antes do cair da noite tocava a Trindades. Eram momentos para reflexão, oração e recolhimento. Alguns pais faziam questão de que os filhos estivessem em suas casas antes do ecoar da última badalada.
À tarde tocava para o terço e/ou missa; aos domingos e dias santos tangiam sonoridades para as eucaristias. O último toque do dia fazia-se com o cair da noite. Era o toque das almas ou toque das Avé Marias. A estes toques de rotinas juntavam-se os toques horários. Com a eletrificação, o velho relógio de carretos e cremalheiras foi substituído e automatizado. As horas passaram a ecoar através de um par de altifalantes instalados na torre. A automatização permitiu assinalar horas e meias horas antecedidas do Avé Maria.

No dia de Páscoa tocavam os sinos pela tarde inteira enquanto decorria a passagem do pároco e comitiva pelas casas transmitindo os cumprimentos e a Boa Nova: “Cristo ressuscitou, aleluia, aleluia”. Fora das rotinas, os sinos anunciavam cerimónias e avisos: batizados, casamentos, enterros. Os toques a rebate aconteciam em caso de fogos em casas, aos quais acudia a população com cântaros, regadores, machados … Em caso de incêndios nas matas, tocavam a rebate, tomavam-se enxadas e ramos para extinguir chamas. Distintos em mais de uma dezena de casos, os toques têm o seu código próprio. As várias sonoridades, ritmos e frequências determinam o tipo de informação que veiculam. Podem tanger sons tristes ou alegres, lentos, rápidos ou ultra rápidos, dobrados ou singelos, fortes ou leves. Em caso de morte, permitem informar o tipo de pessoa: adulta ou criança. Hoje em dia continuam vários destes trechos sonoros. Os sinos cumprem várias funções: de sinalização horária, chamadas para cultos, cerimónias e emergências. De tão presentes e disponíveis, quase não interiorizamos o seu real valor.  Nas últimas décadas os sinos perderam alguma importância, fruto de alterações na vida social e tecnológica. Os relógios de pulso e telemóveis, hábitos diversos, televisão, informática e uma quebra de hábitos religiosos têm determinado alterações de hábitos. O toque dos sinos passa despercebido, sobretudo para os mais novos. Todavia começa a haver um novo olhar e sentir destes objetos, seus toques e códigos. Há exemplos de musealização de torres, sinos e casas de sineiros. Um exemplo: “Em 23 de outubro de 2014, a Sé de Leiria, incluindo o claustro, adro envolvente, a torre e a casa do Sineiro, foram classificados como monumento nacional” (3) . Em algumas torres e casas de Sineiros decorrem exposições de vário teor.

Outro exemplo vem-nos de Minas no Brasil: “As igrejas de São João del-Rei tem (sic) um interessante e peculiar sistema de comunicação através dos sinos. Sabe-se por exemplo, pelo repique, dobre ou toques onde será realizada a solenidade; se haverá procissão; hora de missa, quem será o celebrante e muitas outras informações. Nos dobres fúnebres fica-se sabendo se a pessoa falecida era homem ou mulher e até mesmo qual será o horário do funeral […]” Cf. OLIVEIRA: 2007 (4). Devido a este património histórico, cultural e turístico, os toques dos sinos foram classificados como Património Imaterial Brasileiro em 2009, dando-lhe o Governo Estadual de Minas Gerais e São João del-Rei uma importância cultural e turística da maior relevância.

Vivendo no Adro da aldeia (Beselga-Penedono) muitas vezes aos domingos ouvia: “Já tocou duas vezes, tocou a terceira, só falta o pique”, após o que se seguia a Eucaristia. Lembro o grande incêndio na casa dos Titas (5). Era alta noite, os sinos deram o alarme. Acorreu gente de todo o povo. Mulheres e Homens com cântaros cheios de água. Na altura, cerca de 1960, não havia luz elétrica nem água canalizada. Os sinos eram o grande auxiliar, sem eles seria difícil ou impossível circunscrever e extinguir incêndios; alertar para perigos em tempo útil.

É comum situar-se o início da utilização dos sinos por volta do século VI, altura em que começam a ser paulatinamente construídas igrejas nos povos convertidos ao cristianismo. O som era considerado a “Voz de Deus”. Afugentavam perigos, unia as pessoas, davam-lhes segurança. Há inclusivamente sinos com inscrições “Fugo fulmina, ventos dissipo” segundo investigação do antropólogo Paulo Ferreira da Costa (6).

Dizia uma figura típica da minha Terra – o Alberto Pereira, mais conhecido por Alberto Francês:

“Não há sinos tão afinados como os da Beselga. Quando bem tocados parece que subimos ao céu”.

A este preceito também escreveram autores de referência como Miguel Torga caracterizando diferentes modos de operar os sinos. Em Novos Contos da Montanha (1966) dizia este sóbrio Duriense:

“Os sinos tocavam festivamente, ia por toda a aldeia um alvoroço de noivado […] pela coragem com que puxavam a corda do badalo, pela maneira como repicavam ou dobravam, sabia-se a que terra pertencia o cadáver que baixava à cova. Cada aldeia enterrava singularmente os seus mortos. Os de Leirosa, bonacheirões, pacíficos, pobres, tocavam pouco, devagar, sem vontade e sem brio. Mas já os de Fermentões, espadaúdos, carreiros e jogadores de pau, homens de bigodaça e de mau vinho, davam sinais de outro modo, viril e triunfalmente.” (7).

Hoje em dia os sinos continuam a ser imprescindíveis mas, ainda que pudessem ser dispensados, conviria preservá-los como património memorial e instrumentos de comunicação de recurso, tal como acontece com o código de Samuel Morse, o código de bandeiras, os faróis e faroleiros e os pombos-correios, porque nunca se sabe quando os sistemas modernos podem falhar. Todavia há esperança. As torres e os sinos vêm sendo objeto de salvaguarda e de aproveitamento para funções nobres ou mesmo musealizados.

Imagem de torre sineira e de relógio da Horta – Faial. À curiosidade desta peça de arte e funcional acresce o facto de que é um dos poucos exemplares de torres sineiras independentes da arquitetura das igrejas, tal como acontece em Leiria, Penedono …

O presidente do Cabido da Sé chegou a ouvir “modinhas populares” tocadas pelos sinos e, depois da implantação da República, há informações de que foi pedido ao sineiro “para tocar ‘A Portuguesa’ e outras melodias republicanas”(8). As torres, sinos e toques estão para alindar, informar e animar todo um bairro, aldeia, vila, cidade. São património material e imaterial contribuindo para a diversidade, a riqueza urbana e turística.

Notas e fontes em linha:

(1)CAMPOS, Fernando – O Lago Azul. Viseu: Difel, S. A.; Tipografia Guerra, 2007, p. 304. OBS. Caro leitor. Se puder adquira este livro. O Autor tem veia literária, também de historiador, cientista e filósofo. Nesta obra ele descreve, através do romance, páginas de História de Portugal e dos descendentes de D. António Prior do Crato que terá sido proclamado Rei de Portugal após a morte de D. Sebastião e reinado, sobretudo nos Açores. Fernando Campos põe o vento como narrador; este está em todo o lado, em todo  parte ele pode ocorrer, descrevendo, tomando partido, maroto por vezes. Além do romance dá-nos a conhecer o destino do rei exilado e da sua prole, que é também a prole do rei Venturoso D. Manuel I. O ambiente entre católicos e protestantes, o nascimento da nação holandesa, as paisagens suíças, as guerras de religiões, o definhar de Portugal quando integrado na monarquia dos Filipes, a Restauração da Independência de Portugal … Um livro pleno de conhecimentos que ajuda a esclarecer a nossa própria identidade; também as virtudes do amor e a malignidade da sua antítese.   (2)Na altura do tríduo, após a crucifixão e até à vigília pascal o acesso aos sinos da Beselga era interdito. Contudo permitia-se o uso dum instrumento a que chamávamos tréculas, construído em madeira e tabuinhas volantes que batiam umas nas outras fazendo imenso barulho. Através deste instrumento a rapaziada encarregavam-se de avisar os paroquianos dos momentos mais expressivos da Paixão. O Oiteiro do Pregão era um dos locais preferidos para tocar as tréculas, tal como o foi noutras situações de transmissão da voz natural e do som.

(3)Torre e casa do sineiro de Leiria in http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_Sineira_(Leiria)

(34OLIVEIRA, Silvana Toledo de “Revista Eletrônica de Turismo Cultural”, 2º semestre, 2007 in http://www.eca.usp.br/turismocultural/silvana.pdf

(5)Consta que os irmãos Titas (António e José) enlouqueceram com as minguas da miséria no pós II Guerra Mundial, o final da laboração das minas de Santo António da Granja de Penedono e a morte do seu pai, não tendo a mãe conseguido lidar com tal situação. O António permaneceu na aldeia e de vez em quando fazia viagens, mais ou menos prolongadas pela região. Tinha o hábito de abordar as pessoas a quem passava “cheques” (geralmente um pedaço de papel qualquer) pela compra de um determinado bem, geralmente imóveis. Não consta que alguma vez tivesse feito mal a alguém. Já o José era menos comunicativo e ditou a sua sentença de reclusão quando foi acusado de ter ateado fogo à casa. Foi então levado para um asilo até que por lá morreu.

(6)COSTA, Paulo Ferreira da  – in http://www.superinteressante.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1939:toques-afinados&catid=9:artigos&Itemid=83

(7)TORGA, Ob. cit. 12ª Ed. 1952, p. 41; 65

(8)Cf. Os sinos de Leiria têm histórias para contar; Sé de Leiria in http://www.regiaodeleiria.pt/blog/2011/12/23/torre-da-se-os-sinos-de-leiria-tem-historias-para-contar-fotogaleria/; http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9_de_Leiria

&

-Património Imaterial no Brasil in  http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001808/180884POR.pdf ; http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=1870

-Os sinos de Leiria têm histórias para contar in http://www.regiaodeleiria.pt/blog/2011/12/23/torre-da-se-os-sinos-de-leiria-tem-historias-para-contar-fotogaleria/

-Os sinos falam – in http://www.paulinas.org.br/familia-crista/pt-br/?system=news&action=read&id=4218

-O toque dos sinos em Minas Gerais  in http://portal.iphan.gov.br/portal/baixaFcdAnexo.do?id=1870

-Sinos in http://www.superinteressante.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=1939:toques-afinados&catid=9:artigos&Itemid=83

-TORGA, Miguel – Novos Contos da Montanha. Coimbra: 12ª ed. 1952. Disponível in https://cld.pt/dl/download/ba71439a-c0fb-496c-8c1c-15faff92d8ee/Miguel%20Torga%20-%20Novos%20contos%20da%20montanha.pdf?public=ba71439a-c0fb-496c-8c1c-15faff92d8ee