Arquivo | Julho, 2013

MARCAS EM CARNIDE. DA LUZ AO ESPÍRITO

24 Jul

                Aborda-se, nesta visita, uma seleção de patrimónios de valor artístico, mas também a vertente imaterial ou espiritual de Carnide, como terra de “luz”, devoção, romaria, feira e festa com a particularidade rara de dois patronos/oragos (Senhora da Luz e São Lourenço).

           Não esquecemos o culto histórico ao Espírito Santo no Alto do Poço (atrium ancestral de Carnide) e a fixação de comunidades religiosas, tais como os Templários, no seguimento da reconquista. Referiremos também o papel da Ordem de Cristo, bem como o papel dos Franciscanos, entre outras irmandades que aqui desenvolveram e prosseguem trabalho social, cultural e humanitário.

           O turista recém-chegado a Carnide que entre de súbito pela zona histórica, vindo pela Estrada da Luz até à Rua da Fonte e encontre um edifício com a construção interrompida, há vários anos, às portas do bairro histórico, dirá que Carnide é uma freguesia parada no tempo, sem alma e sem gosto.

           Porém, se o mesmo turista se tornar visitante atento, sem clichês pré-concebidos, se começar por fruir um pouco do renovado Jardim da Luz, entrar na igreja, ler e meditar sobre o que foi e o que é o complexo religioso, educacional e social do Largo/Jardim da Luz;

           Se entrar nos espaços tradicionais e referenciais, “Restaurante Jardim da Luz, Carnide Clube, Espassus 3G, Teatro D. Luís Filipe, Centros Culturais e Biblioteca Natália Correia”, entre outros;

           Se fizer uma visita aos edifícios e organizações com sede nos ex-conventos; se analisar a obra realizada pela Junta de Freguesia e Câmara Municipal, destacando-se o apoio à cultura e a várias organizações de âmbito social e comunitário;

           Se participar em eventos nos teatros, centros culturais e igrejas; se assistir aos programas “Viva a Música – Música Portuguesa RTP”, no Largo da Luz, apresentado regularmente por Armando Carvalhêda;

           Se visitar exposições na sede da Junta de Freguesia e outros espaços comunitários, apreciar locais em que perdura uma tradição e um “espírito de bairro”; então o visitante atento, ficará com uma ideia bem diferente de Carnide daquela com que se deparou ao entrar subitamente na freguesia.

           O “bairro histórico” e a freguesia merecem ser observados na sua totalidade, de preferência com uma explicação prévia, tendo em conta a herança patrimonial de Carnide. Nos tempos difíceis que correm, as instituições desta freguesia e paróquia têm-se esforçado em dar apoio social, cultural e humanitário às populações.

           Carnide suscita particular interesse, até como caso de estudo, começando pelo significado etimológico, passando pelo historial, o sentido das suas marcas culturais e patrimoniais, a “Luz”, o “Espírito Santo”, o “Espírito de Bairro” que teimam em prevalecer entre as comunidades naturais e residenciais.

           É altura de uma abordagem integrada desta freguesia e paróquia. Tal abordagem holística não será por nós conseguida mas vamos participar neste trabalho.

           Falaremos da origem do culto a Nossa Senhora da Luz, da Purificação ou da Candelária com raízes em Israel mas sendo igualmente um fenómeno de divulgação pelas comunidades portuguesas.

           Abordaremos motivações para o apoio ao culto mariano e outros santos, a que não serão alheios  fatores como os ligados à Contra-Reforma e ao Concílio de Trento. E ainda a popularidade do culto, festas e folias à volta do Espírito Santo que, em muitos casos, deixou de agradar à Igreja maioritária, bem como ao poder político.

           Tal popularidade e manifestações à volta do Espírito Santo tornou-se “ameaçador” do status quo social e religioso. Daí a extinção ou esmorecimento das manifestações públicas em Portugal continental. Acabou por se salvar o culto, folias e “impérios” nos Açores e no Brasil onde, longe da corte e da posição mais “ortodoxa”/romana, sobreviveu, não obstante as proibições civis e a retirada de apoios do clero maioritário nos espaços de culto, nas procissões e nas folias.

           Este culto em Carnide leva-nos ainda a falar dos Templários e das teorias milenaristas do monge cisterciense Joaquim de Fiore mas também das raízes judaicas e bandárricas (de Bandarra – célebre sapateiro de Trancoso, de que há marcas em Carnide). O milenarismo e o culto do Espirito Santo leva-nos ainda a referir o padre António Vieira, Fernando Pessoa, António Quadros e Agostinho da Silva.

           Tal como aconteceu com o culto de Nossa Senhora da Luz, o culto do Divino Espírito Santo (hoje em dia alterado), também é um fenómeno de divulgação pelo mundo através dos povos lusófonos, sobretudo no mundo ocidental. Aproveita-se para a demanda de um pouco de “luz” sobre o modo como o conceito de Espírito Santo evoluiu até ser considerado Deus, a par do Pai e do Filho, com identidade e vontade própria. 

           Dedicaremos também umas palavras:

           Ao abandono do culto ao Espírito Santo e ao incentivo do culto  de Nossa Senhora da Luz, particularmente a partir de Carnide.

           Teremos um apontamento sobre os conventos e casas religiosas e as novas funções que desempenham. Veremos  marcas ligadas ao Correio-Mor e outras ligadas aos correios e telecomunicações CTT/TLP/PT.

           – Dedicaremos umas palavras à infanta D. Maria (1521 – 1577) filha do rei D. Manuel I, uma das herdeiras mais ricas e mais belas do mundo de então; referiremos alguns poemas de Camões, que  pensamos ter frequentado Carnide, motivado pelo amor impossível ou interditado à sua amada que repousa na Igreja da Luz.

           Fazemos uma abordagem às marcas rurais deixadas na toponímia: azinhagas e quintas, bem como às marcas da urbanização com a passagem de Carnide para o Município de Belém (1852 – 1885).

           Umas palavras também em relação à gestão autárquica, restauração e animação num espaço histórico que, sendo alfacinha, está perto e longe do bulício da capital. Perto fisicamente, e, longe do ponto de vista psicológico, proporcionando ao habitante e ao visitante uma certa evasão, sentimento de ruralidade, que o poder local tem preservado como marca de valorização do território.

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